BMAG
Agora que o furacão Babell passou, levando consigo a Confeitaria Serrana, já podemos voltar a falar de livros. De bibliotecas, mais propriamente.
Neste capítulo, o Porto não está demasiado mal. A Biblioteca Municipal Almeida Garrett (BMAG), no Palácio de Cristal, é, muito provavelmente, o equipamento cultural com maior impacto na vida dos portuenses. O número de acessos deverá andar à volta de meio milhão por ano.
Comparando o que não é diretamente comparável, mas que serve pelo menos para aferirmos a importância deste equipamento, o Museu de Serralves terá cerca de um milhão de visitantes por ano. Esse número inclui, contudo, eventos excecionais como o Serralves em Festa e, dentro desse contingente, teremos ainda de considerar os visitantes estrangeiros e os nacionais não residentes na cidade. Arriscaria dizer que as entradas atribuíveis a residentes no Porto deverão rondar as duzentas mil. No entanto, isto é apenas um palpite. A Fundação de Serralves lá saberá. É só uma questão de publicar os números completos para tirarmos as dúvidas.
O mesmo se aplica, já agora, aos números da BMAG. Se existem relatórios detalhados, estão de tal forma enterrados no labirinto do universo dos websites municipais que não consigo dar com eles. Em todo o caso, não será especulativo afirmar que a esmagadora maioria dos seus utentes é composta por munícipes e que idosos e estudantes deverão constituir o grosso dos frequentadores.
Não obstante a dificuldade em encontrar informação relevante, por vezes tropeçamos em dados avulsos, como aquele que indica que, entre os meses de fevereiro e março deste ano, foram feitos 15 888 empréstimos domiciliários. Poderíamos ainda falar da programação infantojuvenil, da atividade regular do auditório e do papel de âncora desempenhado pela BMAG na Feira do Livro do Porto.
Por estas e por outras razões, a BMAG é, para mim, o porta-aviões cultural da cidade.
BPMP
A Biblioteca Pública Municipal do Porto (BPMP), em São Lázaro, encontra-se encerrada para obras de reabilitação e ampliação e terá, finalmente, condições para desempenhar com dignidade a sua missão de Depósito Legal.
Após a intervenção, continuará a compatibilizar várias funções: biblioteca infantil, sala de leitura geral, sala de leitura de reservados e periódicos e ainda biblioteca sonora. Contudo, pela sua componente de Depósito Legal, pelo valioso fundo bibliográfico histórico e pelo importante arquivo de periódicos, de enorme valor documental, estará particularmente vocacionada para uma comunidade de leitores constituída por académicos, estudantes e especialistas.
As obras, de acordo com o projeto de Souto Moura, deverão estar concluídas em meados de 2030. Até lá, foi montada uma operação de contingência para garantir a continuidade da consulta de periódicos e de parte do fundo bibliográfico, distribuído por vários polos, numa tentativa de minorar o impacto do encerramento.

UMA CIDADE-BIBLIOTECA
Para além da BMAG e da nova BPMP, trabalhando em conjunto e desempenhando missões complementares, a cidade pode evoluir para um modelo mais ambicioso. Estamos perante uma necessidade manifesta, como demonstram os números da afluência à BMAG.
Apresento quatro propostas que, uma vez concretizadas, poderiam elevar o Porto à condição de verdadeira cidade do livro. Estamos a falar de ações estruturais, capazes de comprometer a cidade com a melhoria da qualidade de vida e da cultura dos seus cidadãos.
PROPOSTA 1: HEMEROTECA DIGITAL DO PORTO
Uma das principais missões da BPMP é arquivar e disponibilizar para consulta os periódicos. A história do Porto e do país não pode ser contada sem a consulta dos jornais, revistas e demais publicações periódicas, que constituem uma fonte absolutamente incontornável.
Talvez a maior parte das pessoas não tenha consciência disso, mas o Porto oitocentista produziu uma formidável quantidade de jornais ao longo do século XIX. Alguns dos projetos mais consistentes chegaram ao século XX, como O Primeiro de Janeiro e O Comércio do Porto, ou até aos nossos dias, como o Jornal de Notícias.
É impossível fazer a história da cultura, da literatura, da política, dos costumes e da própria cidade sem consultar estes documentos. O problema é que estamos a falar de objetos materialmente muito frágeis. Os jornais não foram pensados para durar. Sempre que se consulta, por exemplo, um exemplar de O Comércio do Porto de 1854, dá-se mais um passo no seu processo de degradação. É a saliva no canto das folhas, o cotovelo descuidado que vinca uma página, o virar mal calculado que provoca um rasgão.
Durante muito tempo, por certas obrigações, tive de lidar diariamente com imprensa publicada durante o romantismo e, já nessa altura, os exemplares que me chegavam às mãos apresentavam um estado de degradação considerável. Alguns tinham mesmo próteses e reforços destinados a retardar, tanto quanto possível, o seu lento desaparecimento.
Uma das medidas mais importantes que deveria ser tomada de imediato seria promover a digitalização de todos os periódicos portuenses. Enquanto país, estamos extremamente atrasados neste domínio. Enquanto cidade, se queremos preservar a nossa identidade e os testemunhos materiais da nossa história, devemos avançar com a digitalização dos periódicos e com a criação da Hemeroteca Digital do Porto, que deveria, naturalmente, ser de acesso livre.
Uma biblioteca não se faz apenas de paredes. Esta é uma lacuna grave e estrutural que deve ser colmatada. Basta olhar para os exemplos de Lisboa, do Brasil e, sobretudo, para aquela que constitui a grande referência internacional: a Gallica, que reúne os periódicos históricos franceses.
PROPOSTA 2: BIBLIOTECA DO METRO DO PORTO
Como referi anteriormente, a solução encontrada para atenuar o impacto do encerramento temporário da BPMP foi a criação de polos de leitura e consulta espalhados por várias instituições: Casa do Infante, Cineclube do Porto, Casa-Museu Marta Ortigão Sampaio, Reservatório do Parque da Pasteleira, antiga Escola Secundária Ramalho Ortigão — exclusivamente para consulta de periódicos —, Casa Eugénio de Andrade, Biblioteca Popular Pedro Ivo e ainda o Bibliocarro, que, durante o mês de julho, se encontra estacionado no Terreiro do Molhe.
Tirando o caso do Bibliocarro e da sala de consulta de periódicos na Ramalho Ortigão, não creio que a estratégia esteja a ser bem-sucedida. Isto apesar de me parecer perfeitamente racional que estas instituições sejam dotadas de uma secção de biblioteca própria ou funcionem como extensões da BMAG e da BPMP.
Gostaria de conhecer os números, que certamente existirão, para poder avaliar melhor. Ainda assim, parece-me que a solução acaba por se diluir e passar despercebida.
Uma alternativa mais simples e racional seria instalar extensões das bibliotecas públicas em estações estratégicas do Metro. Campo 24 de Agosto, Heroísmo, Casa da Música, Bolhão, São Bento, Marquês, Combatentes, Faria Guimarães, Estádio do Dragão e, certamente, algumas das novas estações da Linha Rosa dispõem de áreas mais do que suficientes para receber estes equipamentos, que poderiam até ser organizados tematicamente.
A facilidade de acesso e a localização em rede seriam condições capazes de exponenciar o contacto com o livro e com a leitura. Nem sequer se trata de uma ideia completamente original. Veja-se o exemplo da Metroteka, em Varsóvia.

Consigo imaginar o Porto como uma cidade do livro, dotada de uma biblioteca rizomática subterrânea, em que cada estação se poderia especializar num determinado tipo de bibliografia, de acordo com a envolvente e com a população abrangida pela respetiva área de influência.
PROPOSTA 3: BIBLIOTECA INFANTIL DO COVELO – CENTRO DA LEITURA, IMAGINAÇÃO E CONHECIMENTO (CLIC!)
A Biblioteca Popular Pedro Ivo, na Praça do Marquês, pretende funcionar como biblioteca infantil, mas é evidente que o modelo não está a resultar. A localização não parece adequada ao público a que se dirige e o próprio edifício não tem a escala e condições necessárias.
A solução poderá estar não muito longe dali.
O Parque Infantil da Quinta do Covelo é uma das mais interessantes infraestruturas urbanas da cidade. Não serve apenas a área envolvente, predominantemente residencial, mas toda a cidade e, acredito, terá mesmo capacidade de atração para além das fronteiras do concelho. Seria interessante realizar um estudo de públicos para confirmar esta impressão.
Apesar de algum desgaste dos equipamentos, continua a ser o maior e melhor parque infantil do Porto. Quem o visitar durante o fim de semana facilmente o confirmará. Todas as semanas ocorre ali, muito provavelmente, a maior concentração de crianças e famílias da cidade. É também uma zona democrática, interclassista e intercultural.
Por tudo isto, o Parque do Covelo é a localização ideal para a grande Biblioteca Infantil do Porto. Imagino um edifício concebido de raiz, em diálogo com o parque e com os restantes equipamentos destinados à infância. Teria de possuir uma dimensão suficiente para receber centenas de crianças e famílias.
Não a concebo como uma simples biblioteca, mas como um complexo capaz de acolher múltiplas atividades e serviços: biblioteca, ludoteca, cinema e teatro, horta pedagógica, cozinha pedagógica, centro de apoio ao estudo, entre outros.
Atendendo à especificidade do público-alvo — crianças e famílias —, este centro deveria estar aberto aos sábados e domingos e testar horários verdadeiramente amigos das famílias.
Na minha perspetiva, é fundamental que um projeto desta natureza vá muito para além do domínio da leitura. Deve funcionar como um centro pedagógico dirigido às famílias, com particular atenção às minorias e às crianças em situação de maior vulnerabilidade. Não encontro nenhum modelo que se aproxime na íntegra ao conceito aqui esboçado. Talvez a Biblioteca Gabriel García Márquez [Barcelona], apesar de se tratar de uma biblioteca generalista, se aproxime do espírito aqui pretendido. Ou, talvez, também o curioso caso da Hyson Green Library [Notthingam]que associa atividades de jardinagem com a função mais convencional de leitura. Ou, mais certamente, a Oodi que é a Biblioteca Central de Helsínquia, que, em grande parte, é um equipamento pensado nas crianças e famílias. Vão lá espreitar que vale a pena.

PROPOSTA 4: BIBLIOTECA SÉNIOR — LOJA DO CIDADÃO SÉNIOR
Mas não demos a Biblioteca Popular Pedro Ivo como perdida.
Repetindo o exercício do ponto anterior, olhemos à nossa volta. Se o Covelo se caracteriza pela concentração de crianças e famílias, a paisagem humana da Praça do Marquês é dominada por reformados, que ali se concentram, sobretudo, para jogar às cartas.
Isto sugere, de forma bastante evidente, que se tente fazer ali aquilo que, tanto quanto sei, ainda não foi feito em lado algum: uma biblioteca vocacionada para a população sénior.
Não estou certo sobre o tipo de oferta bibliográfica que deveria ser disponibilizada. Esse seria um desafio interdisciplinar para técnicos das áreas das ciências do envelhecimento — prefiro chamar-lhes assim — e da biblioteconomia.
Mas imagino algo que vá muito para além de uma biblioteca. Um programa interdisciplinar de apoio ao envelhecimento ativo, capaz de integrar atividades culturais, apoio à leitura, formação digital, convívio e acompanhamento em tarefas quotidianas.
Poderia mesmo ser criada ali uma pequena Loja do Cidadão Sénior, destinada a prestar apoio na relação com os serviços do Estado e com outros serviços relevantes: marcações, pedidos, formulários, acesso a plataformas digitais ou renovação online de receitas de medicação recorrente.
E, já agora, que a área da esplanada passasse a ter algum tipo de cobertura, capaz de abrigar, nos dias de chuva, a comunidade da suecada.

























