PORTO + NORTE


  • Área Metropolitana do Porto e Pensamento Metropolitano

    Pensar na organização do território metropolitano não é apenas traçar linhas num mapa ou gerir competências administrativas partilhadas. É, acima de tudo, um exercício de visão, de escala e de identidade. No Norte, e particularmente na Área Metropolitana do Porto (AMP), urge transitar de uma gestão de “vizinhança” para um verdadeiro pensamento metropolitano.

    A Escala: De Londres ao Porto

    Para compreendermos o desafio, olhemos para fora. Por exemplo, a Grande Londres (Greater London), com os seus cerca de 1.500 km² (distribuídos pelos 32 boroughs e pela City), é uma área metropolitana gerida sob uma autoridade estratégica única (a Autoridade da Grande Londres), liderada por um “Mayor” diretamente eleito pelos cidadãos metropolitanos, que atua para uma população de cerca de 9 milhões de habitantes. Em comparação, a nossa AMP estende-se por uma área superior — cerca de 2.000 km² — mas serve uma população de apenas 1,7 milhões distribuída pelos seus 17 municípios.

    Esta discrepância de densidade realça uma fragilidade: enquanto Londres se assume como um ecossistema único e pulsante, a AMP ainda se debate com uma fragmentação que nos impede de atingir o potencial pleno. Talvez a chave resida na governação. Se o “Mayor” da AMP fosse diretamente eleito pela população, deixaríamos de ter uma entidade meramente administrativa para passar a ter uma governação política de proximidade, com um rosto e uma responsabilidade direta perante o cidadão.

    Mobilidade: Entre o Local e o Estratégico

    O pensamento metropolitano exige que as infraestruturas sirvam a coesão territorial e não apenas conveniências de curto prazo. Veja-se o exemplo da expansão da rede de Metro. Frequentemente, assistimos a debates sobre linhas curtas em zonas centrais — de execução complexa e com impactos hidráulicos e patrimoniais sensíveis no coração do Porto — quando o pensamento estratégico deveria apontar para a periferia.

    Estender o Metro até à Trofa, por exemplo, não é apenas “levar o comboio mais longe”; é dar a milhares de cidadãos a oportunidade real de integração no centro da AMP. É substituir o automóvel por uma rede capilar que entenda a área metropolitana como um todo orgânico.

    A Habitação e o Exemplo de Vila Meã

    A crise da habitação é, talvez, o domínio onde (a ausência de) um plano metropolitano comum é mais flagrante. Continuamos reféns de planos umbilicais de cada município, quando a solução, como bem refere Alexandre Burmester num artigo recente aqui no Norte.pt, reside frequentemente “ao lado”.

    Por experiência própria, após anos a viver próximo do centro do Porto, a mudança para Vila Meã revelou-me o que deveria ser a norma: uma localidade com características de campo que, graças à ligação ferroviária, se torna perfeitamente funcional como local periférico de residência. Este equilíbrio entre a qualidade de vida do “interior” metropolitano e a conectividade com o centro é a resposta para a escassez habitacional, mas exige uma visão que ultrapasse as fronteiras das freguesias.

    O Peso da História e o Fantasma do Centralismo

    O caminho para este pensamento integrado tem sido dificultado por um centralismo histórico que remonta a tempos antigos. Recuperemos a Lei de 23 de Abril de 1913 (a Base 5.ª do Ministério do Fomento). Naquela época, a vontade de afirmar o “porto de Leixões” como o “porto da Cidade do Porto”, levou o Governo a preceituar a anexação de várias freguesias de Matosinhos (como Leça da Palmeira ou Guifões) ao concelho do Porto. O objetivo era claro: alargar a circunvalação e centralizar o poder económico e geográfico num único núcleo.

    Este instinto de “anexação” em vez de “colaboração” deixou marcas. A própria Estrada da Circunvalação, que em 2006 foi alvo de um projeto de reconversão que previu uma integração urbana ambiciosa, acabou por ser mais um exemplo de um pensamento metropolitano que ficou esquecido numa gaveta, vítima da falta de concertação entre os vários atores do território.

    Conclusão

    O Norte precisa que a AMP deixe de ser uma soma de dezassete vontades municipais para passar a ser um projeto comum. O pensamento metropolitano não retira autonomia aos concelhos; pelo contrário, dá-lhes a escala necessária para resolver problemas que nenhum município consegue vencer sozinho: a habitação, a mobilidade sustentável e a competitividade económica. É tempo de olhar para além da Circunvalação e governar para as pessoas, onde quer que elas escolham viver na Greater Oporto.

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  • BURGO. UMA CIDADE DE PALAVRA.


    Acabámos de lançar o podcast BURGO. UMA CIDADE DE PALAVRA, que funcionará como uma espécie de braço-armado do blog NORTE.PT. Neste novo projecto, o Porto é o pretexto para se falar de cidades, de como elas se deixam ou não viver, de como elas moldam a identidade dos indivíduos e de como nós próprios as moldamos com as nossas próprias decisões. Os convidados são fazedores de cidade, muitos deles ilustres desconhecidos ou, simplesmente, ilustres esquecidos. Cada um, de uma forma ou de outra, contribuiu para a construção desta paisagem coletiva a que chamamos casa. Não há gigantes sobre cujos ombros possamos descansar. Apenas homens e mulheres que nos ajudam a fazer este chão comum.


    BURGO, O PODCAST DE NORTE.PT. EPISÓDIO 1: ARQº JOSÉ PULIDO VALENTE.

    Neste primeiro episódio visitámos o Arq.º José Pulido Valente, numa tarde fria e chuvosa de janeiro. A conversa, aqui condensada para caber no limite de 90 minutos, foi fluindo ao sabor da memória e acabou por compor um retrato talvez menos conhecido desta figura da cidade. Começámos por Lisboa e pelos anos que antecederam a sua vinda para o Porto, em 1955, cidade onde se fixou até hoje. Recuámos a esse tempo inicial e, a partir daí, deambulámos pela fundação da Cooperativa Árvore, por Viana do Castelo, pela sua obra arquitectónica, pelo caso Bom Sucesso, até regressarmos de novo a Lisboa e às memórias de Aquilino. Esta gravação contou ainda com o precioso apoio de Sancho, Margot, Darma e Dalma, que se mantiveram, dentro do possível, tranquilos.

    José Maria dos Santos Pulido Valente nasceu em Lisboa a 27 de Julho de 1936. Nessa cidade fez os estudos secundários no Liceu Pedro Nunes (1946-1953). Quando se mudou para o Porto, matriculou-se no curso Superior de Arquitectura da Escola Superior de Belas Artes do Porto, em 1955, curso que concluiu em 1964 com a classificação de 19 valores. Apresentou como tese de licenciatura o trabalho Moradia da Avenida de Fernão Magalhães, Porto – 1964. Desde 1958 que trabalha como profissional liberal na sua cidade adoptiva. Já projectou residências, escritórios, complexos turísticos e projectos urbanísticos em cidades como Porto, Matosinhos, Vila do Conde, Póvoa, Viana do Castelo, Vila Nova de Cerveira e Ovar. Foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, estagiou em Paris (Centre Scientifique et Technique du Batiment), em Hanôver, em Berlim (Institut für Bauforschung), em Roterdão (Bauzentrum) e em Londres (Building Centre). José Pulido Valente ajudou a fundar a Cooperativa de Actividades Artísticas Árvore, em 1962, e desde há muito que faz parte da Sociedade Portuguesa de Autores e da Sociedade Portuguesa de Acústica. Leccionou arquitectura em duas instituições: como professor assistente na cadeira de Construção/Arquitectura, entre 1977 e 1986 no Curso de arquitectura da ESBAP (Escola Superior Belas Artes do Porto) e da FAUP (Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto), na Escola Superior de Arquitectura da Cooperativa Árvore e na ESAP (Escola Superior Artística do Porto). Em1963 e 1975 foi consultor técnico da Câmara Municipal de Viana do Castelo. Participou em inúmeras exposições, individuais e colectivas, seminários e congressos, tem colaborado em diversos jornais e é autor de livros como “Acuso: Crónicas de arquitectura-urbanismo” (2001), “A Remar Contra a Maré” (2005) e o recente “José Pulido Valente. 18 Obras” (2026).


    Ficha Técnica: Podcast gravado a 20.01.2026. Coordenação, entrevista e edição por David Afonso e Tiago Azevedo Fernandes. Fotografia: Tiago Azevedo Fernandes. Genérico: “Porto à chuva Blues” de Jorge Carvalho.

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  • A solução para a Habitação pode estar aqui ao lado

    Assistimos há demasiado tempo à mesma discussão sobre a habitação em Portugal. O problema entrou definitivamente no espaço público e, desde então, multiplicam-se debates, conferências, relatórios, artigos e intervenções de todo o tipo. O diagnóstico repete-se de forma quase ritual: faltam casas, os preços são demasiado elevados e uma parte crescente da população tem dificuldade em encontrar onde viver.

    Curiosamente, quanto mais se discute o tema, mais evidente se torna que o problema já foi suficientemente explicado. As causas estão identificadas, as condicionantes são conhecidas e até muitas das possíveis soluções já foram enunciadas vezes sem conta. O que parece faltar não é tanto compreensão do problema, mas capacidade, ou vontade, de aplicar, de forma consistente, as várias respostas que se sabem necessárias.

    Porque a habitação é, naturalmente, um problema complexo. Não tem uma solução única nem milagrosa. Tem várias, que precisam de ser aplicadas em conjunto, ajustadas às realidades locais e às possibilidades de cada momento. E também já se percebeu outra coisa: não havendo soluções rápidas, será sempre necessário ir juntando peças, construindo respostas progressivas que, pouco a pouco, possam aliviar o problema.

    Entretanto, o país mudou. A desertificação do interior, as novas formas de constituir família, o aumento da longevidade, a imigração e o crescimento da população em determinados centros urbanos vieram colocar uma pressão enorme sobre o mercado da habitação. Um mercado que, simplesmente, não consegue acompanhar a procura.

    E, como se não bastasse, tudo o resto conspira contra qualquer solução: processos de licenciamento intermináveis, concursos públicos que se arrastam, regulamentação excessiva, falta de mão-de-obra, escassez de empresas de construção. Tudo isto somado significa duas coisas muito simples: construir é cada vez mais caro e cada vez mais difícil.

    No meio de tantas discussões, uma ideia surge repetidamente, embora raramente levada a sério: incentivar verdadeiramente a vida no interior do país. Um interior que, convém lembrar, não fica no fim do mundo. Fica aqui ao lado, hoje servido por boas vias de comunicação e por infra-estruturas que há poucas décadas nem existiam.

    Esse incentivo não deveria dirigir-se apenas às famílias, mas também às empresas. Bastaria, por exemplo, um programa fiscal inteligente, que reduzisse progressivamente impostos à medida que aumentasse a distância aos grandes centros urbanos. Para uma empresa, o essencial é ter mão-de-obra. E, com incentivos adequados, essa mão-de-obra também poderia encontrar razões para se fixar.

    Além disso, cada vez mais pessoas trabalham à distância. O que antes era impensável hoje tornou-se banal. Trabalhar a partir de casa deixou de ser excepção para passar a ser uma possibilidade real para muitos sectores.

    E talvez nem seja preciso explicar muito às famílias as vantagens dessa mudança. Trocar apartamentos exíguos em bairros periféricos, ou até centrais, por casas com espaço, quintal e qualidade de vida. Voltar a viver num ambiente menos congestionado, mais saudável, mais humano.

    O interior agradeceria. A pressão imobiliária nas grandes cidades também. E até o enorme património construído que hoje se encontra abandonado poderia finalmente ganhar uma nova vida. Porque, no fundo, o país que continua a discutir o problema da habitação talvez já tenha parte da solução mesmo à sua frente, simplesmente esqueceu-se de olhar para ela.

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  • MARIA PIA: UMA PONTE EM CONTEXTO DE INVISIBILIDADE

    [Fotografia do autor]

    Lembram-se do clássico “A Ponte do Rio Kwai”? Creio que já passou tempo suficiente para dizer que, no fim, (spoiler alert!) a ponte vai pelos ares. O argumento é bastante linear e com o seu quê de absurdo: prisioneiros de guerra aliados são obrigados pelos japoneses a construir uma ponte, tarefa que os prisioneiros desempenham com toda a diligência e empenho, com um resultado admirável para, no final, a fazerem explodir.

    Ora, diria que, mais coisa menos coisa, a Ponte Maria Pia é a nossa Ponte sobre o Rio Kwai. Foi inaugurada em 1877, projectada por Gustave Eiffel e pela sua equipa (com particular relevo para Théophile Seyrig), incorporando a mais avançada engenharia metálica do seu tempo. O arco de 160 metros foi, à data, o maior do mundo em ferro forjado. Era, nada mais nada menos, a materialização da própria modernidade em Portugal. Evidentemente, como toda a gente sabe, esta nossa ponte não foi mandada pelos ares e, por enquanto, ainda lá está. Preferimos desmantelá-la pelo esquecimento e pela incúria. Demora mais tempo – previsivelmente continuará de pé durante as próximas décadas – mas, no fundo, é como se já ali não estivesse. A tecnologia da implosão por esquecimento é de grande eficácia: reparem que a ponte de ficção sobre o Rio Kwai já não existe mais, mas foi imortalizada e incorporada no imaginário da cultura popular, ao passo que a Ponte Maria Pia só subsiste enquanto Substantia materialis despojada de qualquer significado e existência cultural. Está por ali mas é como se não estivesse e, pior, é como se nunca sequer tivesse existido. É uma outra espécie de condenação à morte, uma morte lenta por efeito da corrosão da indiferença e apagamento da memória.

    Talvez um dia venha mesmo abaixo como diz Alexandre Burmester, mas a verdade é que há muito que esta implodiu dentro da consciência dos responsáveis políticos. Não é preciso ir muito longe. A própria Câmara do Porto não vê na Ponte Maria Pia um ativo turístico relevante. Se consultarmos o site oficial da Câmara para estas coisas, o Visit Porto, no qual se consubstancia a estratégia da divisão da cidade em 8 distritos turísticos, numa tentativa inconsequente de dispersar a procura turística pela cidade, verifica-se que a ponte não aparece referenciada no Quarteirão Campanhã que aparece caricaturado como “Um Porto Rural e Moderno”, obliterando todo o passado e património ligados à indústria. Destacam-se pontos de interesse como a Quinta da Bonjóia, a Marina do Freixo, o Estádio do Dragão e, até o Antigo Matadouro que, por enquanto, ainda é um projecto em desenvolvimento. A Ponte Maria Pia nem vê-la. Assim, claramente para a Câmara Municipal do Porto, a Ponte Maria Pia não é um “Ponto de Interesse” na construção de uma identidade turística do Campanhã District. Será, portanto, um Ponto de Desinteresse. Não conseguir ver aquela estrutura é obra: são1.500 toneladas de invisibilidade!

    A ponte, portanto, continua lá mas é como se tivesse caído. Não obstante as já referidas 1500 toneladas de filigrana de ferro. Até um leigo como eu  não pode deixar de pressentir que há ali uma grandeza única e irrepetível. Não terá sido por acaso que em 1982 foi classificada como Monumento Nacional. Depois disso ainda se manteve em serviço por quase uma década, encerrando definitivamente, após 114 anos, no dia de São João de 1991. Desde então, a ponte entrou num limbo, com o Estado e as autarquias a empurrarem entre si as responsabilidades. Projectos de reactivação vários, nomeadamente a criação de uma ecopista, seguiram-se sem que nenhum chegasse a se concretizar.

    Uma ponte é uma ponte quando já não liga duas margens? Talvez um bibelot urbano, à maneira dos arquitectos Pedro Bandeira e Nuno Ramalho que em 2013, provocatoriamente, propuseram a transladação da Ponte para o interior do quarteirão da Companhia Aurifícia? Bom… talvez aí a Visit Porto não pudesse deixar de considerar a dita como ponto de interesse…

    [Proposta Pedro Bandeira e Nuno Ramalho (2013). Fonte: Público]

    Em todo o caso, não é totalmente verdadeiro afirmar que a ponte não liga nada a lado algum. Serviu, por exemplo, para ligar Porto e Gaia a Solingen, discreta cidade da Renânia alemã. Em 2017, representantes municipais reuniram-se em Solingen para lançar as bases de uma candidatura conjunta ao Património Mundial da UNESCO envolvendo seis grandes pontes metálicas em arco do século XIX: além da Maria Pia, a Dom Luís I (Portugal), a Müngsten (Alemanha), Garabit e Viaur (França) e San Michele (Itália)1. Em 2019 e 2022 foram assinados memorandos de entendimento visando a preparação de um bem em série transnacional — a designação técnica adoptada pela UNESCO para candidaturas compostas por vários bens situados em diferentes países, unidos por coerência tipológica, histórica e tecnológica. A lógica é evidente. Estas pontes não são episódios isolados; são capítulos de uma mesma narrativa europeia da engenharia do ferro. Construídas num intervalo relativamente curto (1877–1902), representam o auge de uma tipologia estrutural que marcou a paisagem industrial do continente. Em conjunto, demonstram evolução técnica, ousadia construtiva e impacto territorial. A UNESCO tem reconhecido bens desta natureza quando o valor universal excepcional emerge precisamente da comparação e da coerência tipológica.

    Todavia, a ponte poderá ter chegado a Solingen mas este era um caminho sem regresso. O memorando foi assinado e por aí mesmo ficámos. Na prática, os nossos representantes prosseguiram business as usual. O que acontece em Solingen fica em Solingen. Até à data nenhum passo foi dado no sentido de honrar a palavra dada. Para uma cidade como Porto, fundada sobre a solene prática burguesa de honrar e cumprir contratos, falhar a palavra para com os parceiros é algo que não faz justiça à sua própria história.  O memorando previa a elaboração de um dossiê conjunto, fundamentando o valor universal excepcional, bem como a criação de um sistema de gestão articulado entre os vários países. Não se trata apenas de marketing patrimonial: implica planos de conservação, definição de zonas de protecção, mecanismos de monitorização e estratégias de uso compatíveis com a preservação.

    Até ao momento, porém, o processo não conheceu quaisquer avanços públicos do lado português. Entretanto, a Lista Indicativa de Portugal foi revista em 2025., tendo-se perdido esta oportunidade. A inclusão prévia nessa lista é condição necessária para qualquer candidatura formal à UNESCO. Se a Maria Pia não estiver nela inscrita no próximo ciclo, ficará automaticamente afastada de uma eventual submissão internacional. Não há calendário fixo para novas revisões; dependem de decisão da Comissão Nacional da UNESCO. Precisamente por isso, o trabalho preparatório tem de começar antes da abertura de nova janela de oportunidade.

    O Porto orgulha-se da sua tradição contratual, da palavra dada e cumprida. Honrar um compromisso assumido internacionalmente — ainda que por executivos anteriores — não é um detalhe protocolar; é uma questão de credibilidade institucional. Preparar um dossiê técnico não exige investimentos incomportáveis; exige decisão política, coordenação técnica e visão estratégica. Não se trata apenas de honrar a palavra dada, mas também de não desperdiçar um recurso que para além do seu valor histórico intrínseco, apresenta ainda um elevado potencial de desenvolvimento turístico e de integração na rede de mobilidade intermunicipal. Esperemos que Pedro Duarte e Filipe Menezes estejam à altura.


    1. A Itália retirou a Ponte San Michele (Paderno d’Adda) da candidatura UNESCO em Julho de 2024, na sequência da decisão de avançar com uma nova travessia considerada incompatível com o processo de classificação. Teoricamente, poderá ainda retomar o processo após a construção da nova ponte. ↩︎
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  • Ingratidão à beira-mar

    Um dia destes, para nascer, ainda será preciso apresentar previamente um formulário devidamente preenchido e carimbado pelos pais. E, quando formos à praia, antes de entrar na água, talvez tenhamos de pedir licença, exibir certificado de natação e apresentar atestado psicológico. Para sair à rua, para trabalhar, para viver, precisamos hoje de uma quantidade absurda de autorizações. Já não existimos: existimos autorizados. Triste destino para os homens, invejável sorte para os animais.

    Digo isto a propósito do Porto de Leixões, porque é neste país de autorizações que se discute agora a sua anunciada expansão.

    O porto vai fazer 147 anos. Quando nasceu, existia ali uma vila piscatória chamada Leça da Palmeira, na altura em parte transformada em área chique balnear, e algumas áreas rurais, entre elas a de nome “Bouças”, que viriam mais tarde a dar origem à cidade de Matosinhos. Isto acontece em 1909, portanto, depois do próprio porto. O Porto de Leixões instala-se no estuário do rio Leça, entre a freguesia e uma zona industrial virada ao mar, do lado sul.

    Depois veio a cidade. Cresceu. As áreas envolventes do porto transformaram-se primeiro em zonas de serviços e de comércio ligados às lides marítimas e à indústria das pescas e, mais tarde, em áreas habitacionais valorizadas, modernas, caras e desejáveis. Mas convém não esquecer um dado essencial: grande parte desse crescimento deve-se, precisamente, ao porto. Se quisermos usar uma metáfora familiar, Leixões não foi a mãe da cidade, mas foi, sem dúvida, o seu pai.

    E agora o pai quer crescer. Quer ampliar-se, modernizar-se, continuar a cumprir a sua função económica, estratégica e regional. Não por vaidade, mas por necessidade, do país e da região. Só que os filhos, agora ricos e confortavelmente instalados na herança recebida, não querem trabalho, não querem ruído, não querem pó, não querem ver mãos sujas nem estruturas fabris à porta de casa. Acham até que o pai, com aquele aspecto industrial pouco fotogénico, devia desaparecer da paisagem.

    E fazem uso de todos os instrumentos que hoje regulam qualquer acto de existência: regulamentos, pareceres, estudos, procedimentos, autorizações. Tudo serve para dizer, com linguagem educada, aquilo que no fundo é simples: “não queremos o pai aqui”.

    E depois chamam-lhe participação cívica.

    Pois eu gosto de portos. Gosto muito de barcos. E gosto pouco de ingratos.

    Dito isto, não estou aqui a avaliar a forma como o porto prevê a sua evolução. Não conheço alternativas, não sei se o projecto está bem ou mal concebido, nem defendo se deve ou não avançar. Limito-me a constatar a sua história e a estranhar, com alguma amargura, a forma tristemente ingrata como é tratado por quem mais beneficiou da sua existência.

    E isso, mais do que um problema urbanístico ou ambiental, é sobretudo um problema de memória, e de carácter.

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  • Não é só a chuva

    Hoje tive de sair de manhã, entre as 8h00 e as 9h15. Que sensação estranha! Uma cidade quase vazia em locais que supostamente seriam centrais. A chuva afugentou os turistas, e não resta quase ninguém. Uma percentagem enorme dos edifícios está devoluta. Ruas inteiras sem actividade a não ser, pontualmente, mais uma obra de um novo hotel.

    Eu acho que isto só se vai resolver quando o IMI aumentar exponencialmente com o tempo em que os imóveis estiverem sem uso. As rendas têm de baixar, os preços de venda também. Há um custo enorme para a cidade no facto de o edificado não ter uso, é justo que isso seja reflectido na tributação, para que seja corrigido. Uma cidade não é um ajuntamento de edifícios, é um espaço com gente a residir, a trabalhar e, sim, também a visitar em turismo.

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  • Trotinetes: Quantas queres?

    Calhou, neste domingo, ter escapado por uma unha negra a ser atropelado no passeio por uma trotinete conduzida por um turista, certamente possuído pela euforia do city break. Calhou andar a correr pela marginal fora como qualquer outro parvinho de meia-idade. Calhou apanhar a maré em baixa-mar. Calhou ter topado com o cemitério de trotinetes no Douro. Estas fotografias documentam apenas uma pequena parte, aquela em que tive de parar, à beira do colapso, com os bofes de fora. Presumo que o resto do percurso também deva estar atulhado com cadáveres de trotinetes atirados – assim, à maneira de um romance picaresco – para o rio pela calada da noite.


    A CMP atribuiu, em hasta pública, duas licenças a dois operadores – Bird e Lime – tendo arrecadado 100 mil euros. Se bem percebi, também a licença da Bolt, concedida pela módica quantia de 20 mil euros, ainda deverá estar em vigor. Ao contrário do que acontece em Lisboa, o caderno de encargos não estabelece uma velocidade máxima para as trotinetes, o que seria interessante, nem que fosse pelo simples facto de tal condicionante denotar alguma preocupação com a segurança dos peões e dos próprios utilizadores. Limita-se a reiterar a obrigatoriedade de cumprimento do Código da Estrada e de outros regulamentos à escala municipal e a elencar os locais onde a circulação é proibida.

    Sem irmos muito mais longe, uma das proibições é, como seria expectável, a circulação nos passeios. Uma interdição que tem sido alegremente ignorada pelos utilizadores, sem que pareça haver qualquer preocupação por parte das entidades responsáveis e, muito menos, uma fiscalização minimamente eficaz sobre os prevaricadores. Ocorreram, no passado, operações pontuais de fiscalização por parte da Polícia Municipal; atualmente, desconheço. Nem sei se alguém sabe ao certo quantos veículos destes, alugados através de plataformas, circulam nas ruas do Porto. As licenças preveem 700 veículos por operador, extensível para 900; ou seja, admitindo que estarão a usar toda a capacidade instalada, existirão em circulação entre 2 100 e 2 700 trotinetes e bicicletas. Não sei até que ponto serão fiáveis os dados disponibilizados no Portal de Dados do município, mas, tomando-os como bons, haverá capacidade de aparcamento em spots dedicados para cerca de 2 800 veículos, sendo que apenas cerca de 550 estão verdadeiramente disponíveis. Será mesmo assim? Seria útil que estes dados fossem traduzidos em informação contextualizada para melhor interpretação. Para sermos sérios, todos os dados relacionados com o impacto da indústria turística deveriam estar disponíveis em acesso aberto, numa plataforma que assegurasse a transparência do sector e permitisse aos cidadãos avaliarem por si mesmos as externalidades positivas e negativas a partir de dados objetivos e, nesta linha, não me parece relevante que a plataforma nos devolva dados tão inócuos quanto inúteis, como o número de casas de fado existentes (não é brincadeira, é mesmo assim). Pelo que se viu nas últimas eleições, os próprios candidatos, de um modo geral, não sabiam do que falavam quando falavam de turismo. Mas, adiante. O caderno de encargos, nas condições gerais, também estabelece obrigações ao operador, como a criação de uma plataforma de georreferenciação que permita a localização dos veículos (a licença inclui também bicicletas elétricas), a existência de equipa de logística própria para recolha dos veículos tresmalhados e ainda:

    Nos casos em que os veículos se encontrem parqueados de tal forma que representem um perigo à circulação de outros veículos ou peões, os mesmos serão de imediato removidos, a expensas do operador.

    Também se desconhece o número de diligências efetuadas pelo município neste sentido. Não se sabe quantas vezes foi apresentada ao operador a fatura com as despesas de remoção de veículos abandonados na via pública. O que parece evidente é que alguma coisa não está a funcionar aqui. Demasiadas vezes encontramos trotinetes e bicicletas atiradas à toa nos passeios e nos lugares de estacionamento e, como se vê, também ao rio e, neste último caso, é por demais evidente que ninguém está a fazer o seu trabalho.

    Voltando ao Douro. O cemitério de trotinetes é, de facto, deprimente. Dá ar de uma cidade que desistiu, que não se dá ao respeito. Aos entusiastas da turistificação, sugiro que vejam isto como um dano reputacional. Não fica bem no postal turístico e muito menos nas selfies e TikToks. Só que isto não é apenas uma questão de se ficar mal na fotografia. Estamos a falar de veículos elétricos e qualquer fissura ou dano na estrutura da bateria terá consequências ambientais, e até o Douro tem os seus limites para a quantidade de contaminação que pode absorver. Isto deveria estar a ser tratado também como crime ambiental e as plataformas chamadas a responder pelos danos que resultam diretamente da sua atividade.


    Sem surpresa, constata-se que não estamos sozinhos nisto. Outras cidades enfrentam o mesmo problema. A diferença é que tomaram decisões. Paris, por exemplo, após referendo local em 2023, descontinuou as licenças das operadoras e baniu 15 000 trotinetes das ruas. Uma medida drástica em resposta à utilização abusiva do espaço público e por se terem fartado de andar a pescar trotinetes do Sena. Em Madrid, após um compasso de espera pela decisão da justiça, foram revogadas as licenças e retirados 6 000 veículos das ruas durante este ano. Em Praga, a partir de janeiro de 2026, milhares de veículos também serão retirados de circulação. Nem todas as cidades optam pelo banimento. Muitas seguem a estratégia de impor medidas de mitigação numa tentativa de disciplinar o fenómeno.

    [Excerto regulamento de Barcelona. Regulamento completo aqui]

    Barcelona impôs uma fiscalização muito apertada, com multas sobre os utilizadores que podem ir até aos 500 € e obrigatoriedade de usar capacete. A lista de proibições e de sanções é exaustiva. Roma reduziu drasticamente o número de veículos da rede de micro-mobilidade de 14 500 para 9 000 e limitou a velocidade máxima a 6 km/h. Copenhaga adotou uma solução de geofencing que não permite terminar viagem fora das áreas de estacionamento dedicadas. Haverá muitos outros exemplos. A Euronews fez uma comparação sobre como diferentes países lidam com isto e as regulamentações adotadas (consultar aqui).


    De volta a casa e aos nossos problemas domésticos. Tal como Paris, Madrid e Praga, deverá o Porto banir as plataformas de aluguer de trotinetes? Pessoalmente, inclinar-me-ia para responder que “sim”. Tenho, no entanto, algumas reticências porque, na verdade, desconhecemos o perfil do utilizador. Não sabemos qual a percentagem de residentes e qual a percentagem de turistas que utiliza estas plataformas. Se a percentagem de portuenses fosse significativa, então faria sentido manter o serviço, porque este estaria a desempenhar um papel estrutural no quadro da mobilidade local. Só que acho que não corro grande risco de estar enganado se afirmar que a esmagadora maioria das viagens é realizada por turistas. Neste caso, não creio que faça grande sentido manter o serviço, porque as externalidades negativas parecem superar largamente as positivas e não me parece que o turismo no Porto precise verdadeiramente de trotinetes e, se precisar, então temos mesmo de repensar tudo isto.

    Um outro caminho seria manter as trotinetes mas – e isto é capaz de ser radical – aplicando os termos do contrato de concessão. Sem mudar uma vírgula à licença atribuída às operadoras, podemos melhorar substancialmente o serviço em proveito de todos. A Câmara pode, por exemplo, através da PM, fiscalizar de forma efetiva o modo como as trotinetes estão a ser utilizadas e aplicar as coimas previstas a quem circular fora das zonas e dos horários autorizados (ontem mesmo deparei-me com um grupo de quatro turistas a circular na marginal por volta das 22h30; como tal pode acontecer quando os termos do licenciamento estabelecem de forma clara que as aplicações devem deixar de operar a partir das 22h00?) Recolher e reter, mediante o pagamento da despesa do serviço, os veículos mal estacionados e abandonados na via pública e, neste capítulo, atualizar o valor dos custos com estas diligências, porque estamos a desviar recursos humanos e materiais que deveriam estar adstritos à limpeza e manutenção do espaço público para colmatar as falhas operacionais dos detentores das licenças. Podemos, desde já, retirar as trotinetes do Douro e, para além da despesa inerente, apresentar a respetiva contraordenação ambiental às empresas. Em último caso, perante a persistência do incumprimento, é sempre possível revogar as licenças e lançar novo concurso com regras mais exigentes.

    Fora do atual quadro, o que pode ser feito? Diria que, basicamente, existem três medidas que, aplicadas em conjunto, facilitariam a vida a toda a gente: a) Segurança – Exigir a clarificação do Código da Estrada no sentido de obrigar o uso de capacete pelos condutores de trotinetes, responsabilizando as operadoras pelo fornecimento dos capacetes (neste cenário, a coima deveria incidir tanto sobre o condutor como sobre a empresa que alugou o veículo sem garantir que o cliente dispõe de capacete) e condicionar a atribuição das licenças a uma redução da velocidade máxima permitida pela app. Não é apenas uma questão de segurança para os transeuntes, mas também para os próprios condutores. O dever de hospitalidade a que todos estamos obrigados perante aqueles que nos visitam também passa pelo dever de garantirmos a segurança e o bem-estar das nossas visitas. Para além disso, o SNS já está mais do que sobrecarregado para ainda ter de dar resposta a acidentes perfeitamente evitáveis dos turistas (Já agora: seria interessante analisar o número e a tipologia de ocorrências e tentar perceber qual o impacto direto da indústria do turismo na qualidade do serviço do SNS. Tanto quanto sei, existem estudos para a região do Algarve, mas não para o Porto); b) Exigência e rigor – Em primeiro lugar, parece-me inacreditável que, perante a inevitabilidade de despesas com a fiscalização e recolha de veículos, não esteja previsto o depósito de uma caução por parte do operador. Custa acreditar que o gestor público não tenha recorrido a um mecanismo tão comum quanto eficaz como o depósito de caução. Repare-se que a Câmara exige aos munícipes cauções ou garantias bancárias nas mais diversas situações: obras particulares, obras com ocupação na via pública, concessão de espaços, contratação de empreitadas e até estacionamento de longa duração; mas, quando chega às Licenças de Utilização de Espaço Público para trotinetes, dispensa os concorrentes do pagamento de qualquer caução, mesmo sabendo de antemão – até porque se trata de um ponto previsto no regulamento – que poderá haver necessidade de serviços municipais intervirem para corrigir abusos sobre o espaço público. Em segundo lugar, é preciso, à imagem de Barcelona, atualizar a tabela das coimas e… aplicá-las; c) Organizem-se, pá! – A infraestrutura viária pode ser confusa. Os circuitos nem sempre são claros. Há situações em que os ciclistas e utilizadores de trotinetes são, na prática, convidados a circular pelos passeios pela ambiguidade da sinalética. Se cobramos 100 000 € às operadoras, então devemos, em contrapartida, entregar uma rede viária adequada. Precisamos de mais ciclovias, de maior clareza na repartição do espaço público e de mais informação e melhor sinalética. Não se podem injetar dois mil veículos nas ruas da cidade sem que estas tenham sido pensadas e adaptadas a essa nova realidade. Temos de fazer o trabalho de casa, portanto.


    Tenho muita dificuldade em perceber e aceitar como nos deixámos escorregar para dentro deste caldo cultural de indiferença e de mentalidade de tendeiros. A cidade tem de ser mais exigente consigo mesma. Chegámos a um ponto em que, pelos vistos, pela quantia certa, aceitamos tudo. Até fazer do milenar Douro um cemitério de trotinetes. Comecemos por aí. É o mínimo dos mínimos.

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  • A Praça-Ilha da República

    Já tive oportunidade de visitar a nova Praça da República e a impressão com que fiquei foi ao encontro daquilo que já tinha antecipado. Já se sabia que o novo desenho da praça, decalcado dos percursos de atravessamento espontâneos que se haviam formado ao longo do tempo, mas reduzidos, a régua e esquadro no estirador, à expressão de rectas concorrentes que confluem para um centro, lhe confere uma natureza de espaço de passagem: corredores.

    Parece-me ter identificado uma tensão entre o transitar/permanecer gerada pela ambiguidade do próprio espaço. Esta tensão é gerada por dois tipos de estímulos antagónicos que conflituam entre si, criando uma certa sensação de estranheza e até mesmo de desconforto. Se, por um lado, são propostos estímulos que convidam ao permanecer — plantando mais árvores e arbustos, instalando mais bancos, para além dos novos muretes que podem ser usados como assentos —, por outro lado também foram apresentados estímulos em sentido oposto, ou seja, que convidam ao transitar. Para além dos corredores (haverá organização espacial mais compulsiva para caminhar em frente, sem parar, do que o corredor?), a inexistência de equipamentos de apoio, tais como casas de banho públicas, parques infantis e mobiliário convivencial — isto é, mesas para actividades lúdicas (como jogar às cartas), ou refeições ao ar livre (o Covid-19 parece já uma memória longínqua), ou simplesmente conversar — acentua o efeito corredor. O jardim não serve para estar, mas para atravessar. Também concorre para esta sensação de estranheza o facto de várias secções ajardinadas e relvadas terem ficado emolduradas pelos muretes de granito já anteriormente referidos, resultando num espaço retalhado por percursos bastante largos, por entre os quais aparecem canteiros, quase “envasados” por muros. Não é, de facto, uma situação apelativa para passeios na relva e contacto directo com o verde. Aliás, esta opção de estilhaçar o espaço em canteiros e de evitar áreas planas e amplas é a regra básica do urbanismo hostil a ajuntamentos, manifestações e concentrações. Sabemos logo à partida que ali não decorrerão concertos, manifestações ou comícios porque o espaço foi desenhado de tal forma que inviabiliza esse tipo de actividade colectiva. E recordo que estamos a falar de uma das maiores praças da cidade… Em suma, a mensagem é confusa: dão-me sombra, mas não posso deitar-me na relva; dão-me bancos e muros, mas isto é apenas uma zona de passagem, de escoamento de tráfego pedonal. Fico com Joe Strummer e Mick Jones, sem saber o que fazer:

    One day is fine, the next is black
    So if you want me off your back
    Well, come on and let me know
    Should I stay or should I go?

    Should I stay or should I go now?
    Should I stay or should I go now?
    If I go there will be trouble
    And if I stay it will be double
    So come on and let me know

    Estou mais inclinado para acreditar que quem desenhou o espaço quer que fiquemos um bocadinho, mas sem abusos. Não querem cá ajuntamentos e confusões. Não há aqui nada para ver. Toca a circular, circular.


    Enquanto por ali andava, ia observando a maneira como o jardim era usado: alguns idosos, solitários, sentados nos bancos a verem o tempo a passar; uma jovem de headphones a passear o cão pela trela; um grupo de turistas a improvisar um piquenique em cima do murete; um avô a ensinar uma neta a andar de bicicleta, ainda com rodinhas; e um pai a acompanhar a filha que se esforçava por dar uso aos patins. Não havia muito mais gente. Um jardim um pouco sorumbático para sábado à tarde. Voltemos às crianças, porque também sou pai de uma menina e porque a arquitecta paisagista que desenhou o novo jardim assegura, no Público, que as crianças são a principal preocupação do projecto:

    “No Porto, Praça da República reabre com mais vida e quer esquecer ‘velhos hábitos’.”
    “As crianças precisam de saltar, andar de bicicleta e triciclos, ou seja, precisam de um espaço livre. Uma das preocupações foi trazer este espaço de liberdade para o centro da cidade.”

    Vamos deixar de parte a questão da opção por não se instalar um parque infantil — o que, para um jardim público que se afirma amigo das crianças, é, no mínimo, bizarro — e voltemos àquelas duas crianças de que falei lá atrás. A que tentava aprender a andar de bicicleta desistiu, tal era a trepidação e os desequilíbrios gerados pelo piso em paralelo. Amuou e ficou pelo banco com o avô, sem saber o que fazer. A outra miúda, que tentava andar de patins, também rapidamente percebeu que nada feito. Ainda não seria desta que teria um bom spot no centro da cidade para patinar. Qual é o problema? O piso em paralelo é demasiado irregular e não se presta a estas diversões. Tal como não é confortável para carrinhos de bebé, cadeiras de rodas, idosos com dificuldades de locomoção, triciclos, trotinetes, skates e até para as pessoas cegas que usam bengalas-guia.

    A norma europeia EN 17210:2021 estabelece os requisitos mínimos e recomendações para o ambiente construído, nomeadamente espaços públicos e passeios. A imagem retirada do documento é bastante clara: os pisos devem ser firmes, estáveis, contínuos, com as juntas bem fechadas e antiderrapantes. Creio que ninguém discordará se eu disser que o paralelo em granito irregular (bujardado) à meia-junta não é estável e, muito menos, contínuo. Não é a solução mais adequada para um percurso que pedia um pavimento o mais liso e contínuo possível, existindo no mercado inúmeras soluções técnicas a vários preços, algumas bem mais baratas do que a que foi adoptada. Voltemos novamente às crianças. Se a ideia é que todo o jardim seja um parque infantil, então ainda menos se percebe a opção do pavimento em paralelo. Por algum motivo, os parques infantis de verdade não são pavimentados em pedra — e nem vale a pena explicar porquê. Suspeito que se enveredou por este caminho, essencialmente, por duas razões: a) valorização da estética em detrimento da funcionalidade; b) urbanismo defensivo, isto é, uma superfície lisa seria um convite à comunidade skater para colonizar aquele espaço e, como já vimos, este jardim não foi pensado para se estar, mas para se atravessar.

    Por falar em atravessar, o jardim, na verdade, não passa de uma praça-ilha. Ao contrário do que se previa, as intervenções planeadas sobre os passeios da envolvente não foram executadas, tendo sido adida esta parte da empreitada. Mesmo assim, quando forem realizadas estas obras, o problema manter-se-á, porque o número de passadeiras será insuficiente e o perfil da via não sofrerá qualquer alteração. Há excesso de volume e de velocidade nas ruas que cercam o jardim. Como já disse noutra ocasião, é incongruente cortar o jardim com atravessamentos quando, para lá chegarmos, temos passadeiras em apenas algumas pontas. É preciso redefinir o perfil da via, acalmar o trânsito e transformá-la numa zona de coexistência integrada na Rede 20.

    Em suma, lá se vai mais uma oportunidade de se fazer (boa) cidade. Para a próxima, perguntem às pessoas o que elas querem e do que precisam. Nem os autarcas perderiam autoridade, nem os técnicos cairiam do pedestal por causa disso.

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  • O Milagre de Miraflor

    UM POUCO ANTES

    Durante muitos anos andei muito envolvido no processo de reabilitação da cidade, num momento da história recente imediatamente anterior à financeirização e globalização do mercado imobiliário do Porto. Na antemanhã do que veio a ser o mercado imobiliário actual, apostar na reabilitação do património edificado tinha qualquer coisa de excêntrico. Os clientes eram arrancados a ferros e os processos, lentos e complexos. Não sendo arquitecto — mais flâneur do que gestor —, a minha vocação foi sempre vadear e dormir de olhos abertos, colecionando casas que um dia gostaria de habitar ou de dar a habitar a outros. Lentamente, a cidade foi mudando e, quando demos por ela, tudo estava diferente. A Baixa e o Centro Histórico valorizaram-se a um ponto que não poderíamos ter imaginado, nem no pior dos nossos pesadelos. A expressão “a fish doesn’t know it’s wet” exprime bem a minha perplexidade quando verifiquei que, ao contrário das casas, o preço destas não tinha tecto. Mas mudemos de assunto, porque não quero falar de mim, mas da Manuela e do João e do bonito serviço que nos arranjaram em Miraflor.

    Creio que terá sido por volta de maio de 2012 que chegou às nossas mãos uma encomenda muito peculiar: um cliente tinha comprado onze armazéns em Campanhã e não sabia o que haveria de fazer com aquilo. A rua era magrinha e tímida, mal dava para passar um carro, e Campanhã, meus senhores, ainda era o extremo-oriente da cidade, terra incógnita para investidores. Uma cidade à parte, assim como a Foz no outro extremo era – e é – uma cidade à parte, embora ao contrário, se é que me consigo fazer explicar. Alguns “especialistas” mediadores imobiliários, que crocitavam à volta do cliente, aventaram que a solução passaria por demolir parcialmente a fachada, abrir mais uns metros os portões para, assim, se conseguir meter o carro lá dentro. Pretendiam que, com esta defenestração colectiva, os imóveis ficariam mais valorizados. Felizmente, o cliente, como qualquer pessoa dotada do mínimo de bom senso, percebeu logo que não era por ali. Fomos então incumbidos de conceber vários cenários funcionais (habitar, trabalhar, habitar-trabalhar) para os armazéns, preservando a identidade do conjunto, bem como todo o material de divulgação, como o website promocional e publicações.

    ENTRAM A MANUELA E O JOÃO EM CENA

    Mais ou menos pela mesma altura, recebi uma chamada da Manuela a perguntar se conhecíamos algum prédio na Baixa para venda, porque ela e o João traziam na cabeça um projecto de galeria. Convém esclarecer que, apesar de não ser uma imobiliária, um atelier de arquitectura era uma central de informações e, à época, funcionávamos como um verdadeiro hub de tudo o que se relacionasse com reabilitação urbana. O telefonema da Manuela foi um daqueles momentos em que tudo se encaixou como se estivesse inscrito nas estrelas. Respondi-lhe que, na Baixa, naquele momento não estava a ver nada com essas características e que até desaconselhava, porque os preços naquela zona da cidade estavam estupidamente altos (mal imaginava que esses mesmos preços iriam quadruplicar até aos dias de hoje — o que, retrospectivamente e do ponto de vista do investimento e do potencial retorno financeiro, terei dado o pior conselho possível) —, mas que sabia de umas coisas em Campanhã que eram mesmo o que andavam à procura. Já não me recordo exactamente dos passos seguintes, mas sei que o João e a Manuela, quando visitaram o local, se identificaram de imediato com o espaço e com a Rua de Miraflor. Na sequência deste encadeamento de coincidências, ambos tinham memórias familiares daquela vizinhança. Num instante a decisão foi tomada e o negócio, para satisfação do nosso cliente, foi fechado de pronto.
    Aquilo que antes eram apenas estudos prévios exploratórios transformou-se numa encomenda urgente e, em cerca de um ano, projecto e obra foram dados por concluídos, dando início à actividade do Espaço Mira e do Mira Forum. E foi a partir daí que a verdadeira história começou.

    O MILAGRE DE MIRAFLOR

    A primeira exposição ocorreu de imediato, mesmo antes das obras, a 13 de outubro de 2012 (“um encontro inesperado com o diverso”, curadoria de José Maia), ainda com os armazéns devolutos, condições muito precárias e a água da chuva a escorrer pelas paredes. Este foi apenas o primeiro sinal do que aí vinha. Entretanto, os armazéns entraram em obras e, menos de um ano depois, a 5 de outubro, aconteceu finalmente a primeira exposição formal no Espaço Mira (“Demorar”, Nelson D’Aires). A partir daí, seguiu-se uma cornucópia de eventos e acções a um ritmo imparável. Aos dois espaços iniciais — o Espaço Mira e o Mira Forum — juntou-se, mais tarde e na vizinhança, o Mira Artes Performativas. O ritmo foi avassalador e, francamente, invejo a energia da Manuela e do João em alimentarem aquela dinâmica, até porque, como verdadeiros cicerones, fazem questão de estar sempre presentes e de participar em tudo. Com tanta coisa a acontecer, não era difícil perdermos o fio à meada — ou melhor, às meadas —, porque havia várias dimensões que se cruzavam naquele projecto.
    No website renovado, apresentava-se um Relatório de Contas que, neste momento, já estará desactualizado: 285 exposições, 80 concertos, 195 conversas/tertúlias, 148 lançamentos/apresentações de livros, 155 performances, 84 conversas online, 59 exposições online, 15 conversas sobre mulheres, 50 passeios fotográficos, 27 filmes e conversas sobre cinema, 33 sessões de poesia, 44 workshops e 34 sessões diversas. Não há, no Porto — e muito provavelmente no resto do país —, nenhuma outra instituição pública ou privada com uma programação cultural e intervenção social tão vastas e ecléticas quanto as Galerias Mira.

    ***

    No meio desta torrente, julgo necessário destacar dois projectos pelo seu valor social e cultural: o Mapa Emocional de Miraflor e o Mesa Comum.

    Fonte: Galerias Mira – Mira Forum

    O Mapa Emocional de Miraflor é uma ideia muito “manuelina”. Para quem conhece a Manuela, não estranhará aquela maneira de olhar para um lugar e para o Outro através da metodologia dos afectos. Nada é feito por acaso. Há um conjunto de procedimentos e técnicas utilizados sistematicamente, de forma a cumprirem um desiderato: conhecer — só que esse conhecimento faz-se pelo afecto, pela procura e pela disponibilidade para o Outro.

    Este mapa não é daqueles que se penduram na parede com rios, montanhas, regiões administrativas, cidades e vilas, mas sim os trilhos de vida que se cruzam, fazem tangentes, sobrepõem-se uns aos outros, coexistem lado a lado sem se tocarem, mas que, de alguma forma, constituem a paisagem um do outro. O mapa emocional é o tipo de cartografia que um flâneur apreciaria. Nessa cartografia não há norte geográfico — aquela seta que, por convenção, nos diz “Este lado para cima” —, porque todo o território é norte,  toda a rua é norte, tal como são norte as casas, a memória, a estação. Norte por todos os lados, menos por um: o lado do espectador que mira de fora e que, dessa forma, se deixava nortear. Um pouco mais de norte e eu era daqui.

    O cartógrafo faz o território. Não que esse mundo não existisse antes, mas passa a existir para fora de si, para nós, quando nos é dado — desenhado. O que antes era intuição, meramente suspeitada, é agora um espaço com pontos móveis, as vidas dos que nele se cruzam. O que antes não era, porque vivia na condição da invisibilidade anónima, passa a ser. O registo de imagem e a passagem à forma de letra dos testemunhos de vida dão-nos as coordenadas do território. O mapa não faz o lugar, mas faz o território. Qual a diferença entre lugar e território? Suspeito que o lugar tenha a ver com o novelo das experiências subjectivas e pessoais de quem partilha o espaço na cadência do ritmo dos dias e noites que caem em cima uns dos outros. Território é o lugar traduzido sob a forma de um mapa que lhe confere uma unidade, uma visibilidade, uma voz. Não é uma encenação porque fornece as coordenadas para que ninguém se sinta perdido do lado de fora.

    Fonte: Mesa Comum

    O que é o projecto Mesa Comum? Julgo que o excerto do programa sintetiza muito bem do que se trata e ao que vem:

    “Partindo desta realidade social que vivemos no nosso país e nos anos recentes no Porto propomos o projecto: MESA COMUM | o Mundo em Campanhã. Pretendemos aproximar os fregueses de Campanhã dos migrantes, afinal, os vizinhos que desconhecemos, através da gastronomia, por considerarmos que a necessidade biológica diária de comer e a elaboração diferenciada dos alimentos são um dos elementos de ligação mais imediatos.”

    O projecto Mesa Comum, celebrando o Outro na sua própria diferença, despertou, neste agnóstico empedernido, uma certa emoção eucarística laica. Partilhar um prato e, mais do que isso, confeccionar a refeição em conjunto é uma profissão de fé no Outro. É preciso ter confiança naquele que nos prepara o que iremos comer. A mão do cozinheiro é sempre sagrada e não há melhor sítio do que a cozinha para cumprirmos o dever universal da hospitalidade; a mesa deve ser vista como lugar de redenção. Não há acto de maior amor do que o acto de cozinhar para o outro. Esta convicção cresceu em mim ao longo da infância, enquanto observava a minha mãe a cozinhar todos os dias para dez filhos e que, mesmo assim, ao domingo, era a primeira a levantar-se para preparar aqueles almoços mais distendidos e desobrigados da rigidez dos horários, durante os quais se comia com o vagar dos arcadianos. Era desse mesmo vagar — longe da histeria das redes sociais e dos populismos do medo — que precisávamos para dialogar com aqueles que nos eram estranhos e, não obstante, vizinhos. Não há cultura sem mesa. Não há comunidade sem partilha. Nunca é demais lembrar que a etimologia de “companheiro” evoca aquele que partilha o pão, ou com quem partilhamos o pão (com + panis).

    Dizia Simmel, no breve ensaio “A Sociologia da Refeição”:

    “De tudo o que os seres humanos têm em comum, o mais comum é que precisam comer e beber. E é singular que este seja o elemento mais egoísta, que é por sinal o mais imprescindível e imediatamente restrito ao indivíduo. (…) o que se come não pode, de modo algum, ser igualmente comido por outro. Em nenhuma esfera elevada da vida humana pode-se encontrar uma tal situação: de que o que um deva possuir seja absolutamente impossível para o outro.”

    Comer é, pela sua natureza, uma necessidade primária “pessoal e intransmissível” e, sendo uma acção que ninguém pode executar por mim (nem eu pelo outro), parece-nos fechar dentro da nossa individualidade animal. Como transpor essa formidável barreira natural que parece nos apartar do Outro e nos condenar a um puro egoísmo? Através da Refeição, processo pelo qual transmutamos um acto inerentemente egoísta numa celebração da comunidade. A sociedade e a cultura começaram com a partilha do pão. Só mais um pouco de Simmel para acabarmos:

    “O comer e beber juntos — que para o árabe permite transformar um inimigo mortal desconhecido em um amigo — liberta uma enorme força socializadora, que é tanto obscurecedora do facto de que na verdade não é ‘do mesmo’, mas de porções totalmente exclusivas que se come e se bebe, quanto produtora da ideia primitiva de que se produz, deste modo, carne e sangue comuns.”


    Peço desculpa por essa digressão, mas é também a minha forma de celebrar as Galerias Mira. Ando com o tempo um pouco retalhado, mas prometo aparecer por aí um dia destes, nem que seja para a sobremesa e para lavar a loiça — porque isso também faz parte da partilha.

    ***

    Considerei particularmente feliz a escolha da efeméride de 5 de Outubro para abrir as portas do Mira pela primeira vez, porque nos permite celebrar em simultâneo o aniversário da República e o aniversário do Mira: toda a programação parece seguir uma linha de orientação que, de alguma forma, vai ao encontro dos verdadeiros valores republicanos, que são os da solidariedade, fraternidade, liberdade e, sobretudo, do optimismo e da confiança no futuro e no outro — coisa de que estamos a precisar todos como de pão para a boca.

    EPÍLOGO

    No outro dia, na Feira do Livro, encontrei-vos. Ia com a minha filha e tu, Manuela, disseste à Xica que os amigos dos pais só sabem dizer “estás tão crescida” — e que não ias cair nesse lugar-comum. A Xica sorriu. Eu, que não resisto aos clichés quando são verdade, digo-o sem qualquer problema: como está grande o Mira, João e Manuela!

    [Fonte da fotografia de destaque: https://miragalerias.net/]

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  • O Elefante Branco da Boavista

    Desde o primeiro dia me opus ao Metrobus da Boavista. Não foi por falta de argumentos ou de textos escritos, eles estão por aí, publicados em vários lados, mas porque me parecia evidente que um projeto desta natureza, pela sua escala e pelas suas características, só poderia destruir a malha urbana numa das zonas mais consolidadas da cidade. Acresce que o traçado escolhido serve poucos e, por isso mesmo, nunca acreditei nos números de 22 mil validações diárias anunciados com pompa e circunstância.

    Um ano depois da conclusão da primeira linha, após meses de obras numa das principais artérias do Porto, o Metrobus continua parado. O que começou por ser motivo de crítica, e até de chacota, transformou-se numa bandeira de incompetência. Não apenas da Metro, que não consegue justificar as opções tomadas, mas também da Câmara e da STCP, que se entretêm em diálogos de surdos enquanto deixam um investimento de 50 milhões parado no meio da Avenida. Chamar a isto “ridículo” é pouco.

    A palavra certa é “vergonhoso”.

    E, no entanto, a segunda fase do projeto já arrancou. Não porque a primeira tenha mostrado resultados, não mostrou, porque nem sequer funciona, mas porque há prazos de financiamento comunitário a cumprir. É assim que se faz política em Portugal: não se planeia, não se avalia, não se decide em função da utilidade pública.
    Cumpre-se calendário.

    Reconheço, para ser justo, que do ponto de vista técnico o trabalho foi exigente. Compatibilizar soluções, responder a solicitações, integrar condicionantes complexas, tudo isso não é coisa menor.

    Mas do ponto de vista político, o caso é de uma vergonha absoluta. O Metro avançou com uma solução sem futuro. A Câmara, que acompanhou tudo desde o primeiro minuto, incluindo diversos pedidos como, por exemplo, o pedido de abate das árvores da Avenida, recuou quando percebeu o desastre em que estava metida e a opinião pública, que se tem vindo a ouvir cada dia mais alta. Fez de conta que nada tinha a ver com o assunto. A STCP, empresa que simboliza o último grito dos anos 50, seguiu o mesmo caminho: cabeça na areia, como se não tivesse nada a ver com a mobilidade da cidade. E os candidatos à Câmara, naturalmente, aproveitam para cavalgar o escândalo, esquecendo apenas um detalhe: o embaraço é de ambos os partidos que disputam o poder.

    E chegados aqui, porque há que dar um fim a este descalabro, restam apenas duas hipóteses: ou concluímos o projeto, convivendo com mais trânsito e menos alternativas reais ao transporte individual; ou paramos de vez com esta imbecilidade, devolvemos o dinheiro a Bruxelas e temos finalmente a coragem de desenhar um plano de mobilidade que sirva não apenas o Porto, mas toda a Área Metropolitana. Há que decidir e depressa, não adianta continuar a olhar para o lado.

    Mas o Metrobus não passa de um sintoma. O problema de fundo é outro: é tribal. Metro, STCP e agora a UNIR vivem como reinos separados, não falam entre si, culpam-se uns aos outros e sobrevivem sem estratégia comum porque o regulador faz aquilo a que já nos habituámos: olha para o lado.

    As Câmaras, por seu turno, culpam o Estado. E o Estado, como seria de esperar, culpa as Câmaras. Veja-se a Circunvalação: nenhum dos municípios quer recebê-la sem obras feitas, mas todos se queixam da IP. Veja-se a VCI: o ministro da “Luz” promete uma solução que não resolve nada e ainda aponta o dedo à Câmara de Matosinhos, não fosse ela governada pelo partido errado.

    Tudo isto é, no mínimo, ridículo. Assistimos, dia após dia, à pantomina da nossa administração pública, onde cada mudança de cadeira, cada saída anunciada, transforma-se num pequeno espetáculo de ineficiência. Hoje foi a Administração da Metro que se evaporou no ar, como se o problema pudesse desaparecer com eles; amanhã, a da Câmara, com a pompa habitual de quem parte para novos destinos, e, um dia destes, a STCP seguirá o mesmo caminho, deixando atrás de si apenas planos incompletos, projetos a meio, e a certeza amarga de que nada muda realmente.

    É impossível não sentir um certo desalento: tudo parece condenado a morrer na praia, engolido por uma sucessão de direções e mandatos que se sucedem sem qualquer continuidade, sem qualquer sentido de responsabilidade para com quem, no fundo, paga a fatura, nós, os cidadãos. E, no meio deste teatro, ficamos nós, espectadores impotentes, a contemplar o desastre anunciado, sempre com a esperança vã de que, quem sabe, um dia alguém consiga finalmente transformar palavras em ação.

    E é este o retrato do país: cada um no seu reduto, cada um na sua trincheira, todos a empurrar responsabilidades uns para os outros. Nas próximas eleições não vamos escolher presidentes de Câmara, vamos escolher chefes tribais. Como no futebol.

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