As cidades não são corredores de tráfego

Anda meio mundo a tentar explicar ao outro meio que o espaço urbano deve ser pensado para as pessoas e não para os carros, nem para os engenheiros de transportes que ainda acham que uma cidade é um problema de fluidez de tráfego.

Fala-se hoje muito em cidades “amigas do ambiente”, mas raramente se entende o ambiente na sua verdadeira acepção: o ambiente onde vivemos, habitamos, convivemos. O ambiente não são apenas os passarinhos, as árvores ou os painéis solares, é a cidade no seu todo, enquanto espaço público de vida. E esse espaço, se quiser realmente cumprir a sua função, deve ser desenhado com o ser humano como medida.

Ora, o que vemos é o contrário. O espaço urbano tem sido, sucessivamente, entregue nas mãos dos “rodoviaristas” e dos técnicos de transportes públicos, que tomaram conta das cidades como se estas fossem infraestruturas logísticas, onde interessa é medir fluxos, definir corredores, optimizar tempos, e não comunidades vivas. Esquece-se que há gente do outro lado.

Resultado? Cidades como o Porto, onde as ruas se transformaram em corredores de trânsito, pejadas de sinalética e de regras que mais servem os veículos do que as pessoas. Onde a delicadeza do desenho urbano desaparece sob o peso de comboios urbanos, como o Metro de superfície e agora, como se não bastasse, o Metrobus, essa aberração sobre rodas que se introduz nos centros urbanos como se estivesse a ligar zonas industriais.

E, como se tudo isto não bastasse, ainda se discute se esta enormidade sobre rodas, o tal Metrobus, vai circular em corredor dedicado ou em via partilhada, como se fosse dono da cidade, como se não tivesse de conviver com ela, com quem lá vive, com quem lá anda.

A discussão nem devia existir. O simples facto de colocar esta máquina pesada no coração do espaço urbano já é, por si só, um erro. Discutir agora se deve ter direito a exclusividade ou a privilégio absoluto, é como discutir se um elefante deve ou não ter direito preferencial no interior de uma sala de estar.

A cidade não pode continuar a ser desenhada à imagem de quem a atravessa, mas sim à escala de quem lá vive. O espaço urbano não é para ser conquistado, é para ser partilhado.

O centro de Gaia com a sua Avenida da República, ou ainda o antigo centro de Matosinhos com a Rua Brito Capelo, são hoje exemplos claros do que acontece quando se dá carta branca a quem olha para a cidade com régua, compasso e cronómetro, mas sem qualquer sensibilidade para a escala humana. São zonas amputadas da sua função social, mortas para o comércio local, esvaziadas da vida que nelas existia.

E não se pense que o problema é novo. Ainda hoje engolimos a Circunvalação ou a VCI, feridas abertas no tecido da cidade, e conviemos com elas como se fossem inevitabilidades naturais.

O que falta, afinal, para que quem governa e decide entenda o que é evidente para qualquer cidadão minimamente atento? Os transportes pesados não pertencem ao interior das cidades, a não ser e, mesmo assim com cuidado, que circulem enterrados, sirvam como estações de chegada e partida, ou estabeleçam ligações entre centros urbanos e regiões. Nunca, em caso algum, deviam atravessar a cidade como quem passa um arado por um campo antigo. Não há urbanismo que resista, nem bairro que sobreviva.

E enquanto nos debatemos com esta realidade, ainda há quem esteja entretido a discutir quantas estações de TGV deve ter a cidade do Porto, como se uma cidade se definisse pelo número de apeadeiros de alta velocidade, e não pela qualidade de vida que oferece a quem nela vive. Dentro das cidades, o que faz sentido é uma rede de transportes leves, eficientes e dimensionados à escala da vida urbana. Autocarros mais pequenos, bicicletas, trotinetes, pequenos automóveis, sim, comedido e acima de tudo, o peão no centro da equação.

Hoje em dia, existe uma variedade crescente de soluções individuais de mobilidade, muitas delas tecnológicas, sustentáveis e silenciosas, que poderiam e deveriam ser equacionadas para as cidades. Incluindo para o próprio transporte público, que não precisa de ser pesado para ser eficaz.

O problema é que continuamos a desenhar soluções para mover massas, em vez de pensar na cidade como um organismo vivo. Mas isso exigiria outra forma de pensar. Um pensamento que colocasse a cidade como espaço de vida e não como corredor de mobilidade. Um pensamento que ainda não chegou a quem manda. E quando chegar, temo que chegue tarde, como quase tudo neste país com falta de imaginação e medo.

Nota:
A imagem é clara e quase caricatural: o espaço urbano contemporâneo tornou-se a combinação improvável entre os que defendem a cidade pedonal e os que insistem nos transportes públicos actuais, esses mastodontes sobre rodas que atravessam praças e ruas estreitas com a delicadeza de um camião de mercadorias em hora de ponta. É o elefante no meio da sala, só que com validação técnica, pareceres favoráveis e financiamento europeu. Todos o vêem, todos tropeçam nele, mas ninguém se atreve a dizer que não devia lá estar.

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