Vale a pena escutar e, acima de tudo, olhar, quando o pensamento urbano surge de onde menos se espera: fora dos gabinetes técnicos, fora das pranchetas certificadas.
A proposta apresentada por Tiago Cortez e João Baptista para a Avenida da Ponte é um exercício notável de lucidez urbana. Partiram de ideias correctas, algumas das quais já aqui partilhadas neste blog e foram capazes de lhes dar corpo e forma, demonstrando não só que as compreenderam a fundo, mas que as enraizaram num entendimento genuíno do espaço e da cidade como organismo vivo. Não sendo arquitectos, souberam ser aquilo que tantas vezes falta aos que o são: cidadãos atentos, informados e, acima de tudo, implicados.
Hoje, com a ajuda da inteligência artificial, torna-se mais fácil visualizar aquilo que sempre foi difícil explicar: aqui este exercício de como se transforma uma via, que é o que todos nós ainda entendemos deste espaço, num lugar, um eixo rodoviário num cenário de urbanidade, é bem conseguido. E é isso mesmo que esta proposta evidencia. Revela que há ali cidade por fazer e, melhor ainda, que essa cidade não tem de ser imposta de cima para baixo, nem desenhada apenas por quem tem um diploma. Pode e deve ser pensada também por quem a habita, por quem a percorre com olhos curiosos e espírito crítico.
É certo que os desenhos não cumprem todas as exigências formais, há falta de escala, algum conservadorismo na linguagem arquitectónica, uma ou outra ingenuidade de composição. Mas isso é secundário. O essencial está lá: a percepção de que aquele espaço pode ser muito mais do que uma simples entrada na cidade do Porto. Pode ser palco de vida urbana, de encontros e atravessamentos, de continuidade histórica e de futuro projectado.
Por isso, os meus sinceros parabéns aos dois autores. Deram-nos uma lição de cidadania activa. Mostraram-nos que não são apenas os arquitectos que desenham cidade. Mostraram que é possível propor espaço urbano com pertinência, mesmo sem os instrumentos técnicos da profissão. E, mais importante ainda, mostraram que a discussão sobre o que queremos para os nossos lugares deve ser pública, aberta, plural. A cidade, quando é feita apenas por especialistas, tende a esquecer quem a habita. Quando é pensada por todos, começa finalmente a fazer sentido.