O texto seguinte corresponde ao que escrevi na data e que ajudou a promover a discussão pública efectiva, que deu direito a parar o projecto então apresentado.
“O Projecto que foi colocado a Discussão Pública, numa forma pouco clara pela designação que toma de “Delimitação da UOPG”, mas que vem acompanhado por um processo incompleto de peças escritas e desenhadas, sugere a ausência de discussão pública futura do próprio projecto.
Este processo embora incompleto denota desde já princípios errados de ordenamento urbano.
Transporta consigo um desenho essencialmente rodoviário, cuja escala da intervenção e de desenho introduz formas de cidade e de dimensão, que não levam em consideração as características muito particulares da Foz e de Nevogilde. Ao contrário do previsto no PDM, não permite a estruturação urbana das áreas envolventes, criando mesmo rupturas de uso e de escala com o existente.
Será aqui de referir a inexistência de áreas verdes em Nevogilde, a pequena percentagem de áreas públicas, a excessiva dimensão das suas vias sem qualquer estudo que lhes dê suporte, e finalmente o desenho urbano de edificações em bandas contínuas, que em nada respeitam o contexto e ao contrário devassam as habitações existentes.
Tendo este projecto implicações que deverão ser vistas com bastante atenção, para não destruir uma das zonas de maior qualidade da cidade, pretende-se garantir a execução de um Plano que leve em consideração os aspectos referidos do abaixo assinado, e que posteriormente num processo transparente e democrático, passe realmente por uma verdadeira Discussão Pública.”
O texto acima foi complementado pela apresentação pública que foi feita no Estúdio 400.

Quem diria que a história não se repete?
O Projecto da Via Nun`Álvares tem muitos problemas, e o mais grave de todos é que nunca foi tratado com a seriedade que merecia. Estamos a falar de uma obra que, pasme-se, se arrasta há mais de cem anos. Cem anos. E isso diz tudo.
Nasceu colado a uma ideia de via estruturante que, entretanto, perdeu toda a relevância. Desde que não teve continuidade para lá da Avenida da Boavista, deixou de fazer sentido. O que lhe dava propósito, uma intenção de desenvolver um Pavilhão de Exposições que se previu para o actual Parque da Cidade, já não existe. Morreu antes de nascer. E o que temos agora? Uma Avenida que liga o nada a coisa nenhuma, mas que continua a ostentar a pompa e circunstância rodoviária de parecer uma entrada triunfante na cidade.
É isto o drama: com os pressupostos errados, está-se a desenhar cidade por um motivo que desapareceu. E quando se parte de uma ficção, só se pode acabar em caricatura.
E depois há a velha obsessão: fazer Avenidas. Sempre vias rodoviárias. Como se o urbanismo português ainda estivesse preso à régua dos anos 50. Quando o que se devia estar a pensar, com coragem e criatividade, era outra coisa: em vez de mais uma avenida, esse traço contínuo onde só se passa e nunca se fica, era tempo de criar praças, momentos urbanos distintos, pontos de vivência em vez de pontos de passagem. Porque a cidade não se faz a acelerar entre semáforos. Faz-se a pé, com tempo e com vida.
Mais: perde-se, com isto, a oportunidade de fazer o que realmente fazia sentido, um corredor verde que atravessasse esta parte da cidade, ideia que, já agora, lancei há vinte anos (sim, vinte). E que, justiça seja feita, ainda foi recuperada por um dos projectos concorrentes. (Imagem ilustrativa anexa)

E perde-se também o que devia ser óbvio: a criação de um corredor de metro, enterrado, civilizado, eficaz. Um traçado a sério, vindo de Matosinhos, atravessando a Foz, seguindo pelo Campo Alegre, servindo as zonas residenciais e as faculdades, até chegar ao centro da cidade e terminar em São Bento ou Campanhã. Mas não. Em vez disso, temos as habituais invenções da praxe. Metro qualquer coisa, com rodas de autocarro tipo “Bus”, ou à superfície tipo “comboio”. No fim, o que se ganha? Uma discussão. Mais uma. E sinceramente, já dei para esse filme. Não me apetece escalpelizar o projecto aprovado, já o fiz em 2007, já escrevi, já falei. Agora estamos no domínio da AIA (Avaliação de Impacte Ambiental), que, convenhamos, nem sei muito bem para que serve. Mas sei para que está a servir: para que muitos o usem como pretexto para travar o projecto. Não por convicção urbanística. Mas porque sim.