
fonte: Arquivo RTP
Em 1974 e 75, chegaram a Portugal, vindos das ex-colónias, cerca de 800 mil pessoas. Oito. Centos. Mil. Portugueses, ainda que injustamente apelidados de “retornados”, como se alguma vez tivessem deixado de ser nossos. Foi um tsunami humano para um país que ainda nem sabia o que fazer com os que cá estavam. E mesmo assim, o Estado, esse Estado que hoje parece mais dado a webinars, conferências, encontros e comissões de acompanhamento do que a decisões concretas, mexeu-se. Inventaram-se bairros pré-fabricados, improvisaram-se pousadas e estalagens como abrigo, construíram-se urbanizações inteiras de raiz. Portugal não abanou, adaptou-se.
Corta para 2025. Temos agora mais de 1,5 milhões de imigrantes. Quase o dobro. E o que faz o Estado? Espera. Espera que o mercado resolva, que os investidores salvem, que as autarquias desenrasquem, que o preço da construção abrande e que o próximo Simplex legislativo finalmente destrave o milagre. Isto, meus senhores, é aquilo a que chamamos uma “mentalidade simplex”. E não no bom sentido.
Sim, é verdade que os tempos são outros. Que o urbanismo já não pode ser feito com a ligeireza de quem despeja cimento e espera que nasça uma comunidade. Mas é também verdade que a falta de habitação em Portugal atingiu níveis pornográficos, e é trágico que ainda se esteja a discutir se o Estado deve ou não construir casas. Devia ser evidente.
As soluções em cima da mesa são quase todas versões aprimoradas das mesmas asneiras de sempre: incentivos fiscais para quem não precisa, projectos-piloto que nunca passam da maquete, cooperativas que morrem nos corredores da burocracia e regulamentos que mudam mais depressa que o preço da renda no centro de Lisboa.
Não vai resultar. Pode inventar-se a roda das construções modulares, criar task forces, fazer parcerias público-privadas até à exaustão, mas enquanto o Estado não assumir, com coragem e escala, que tem de ser ele a liderar uma resposta massiva, estamos a perder tempo. E tempo, neste caso, significa mais famílias a viver em quartos alugados à semana, mais jovens a adiar vidas, mais migrantes empurrados para a marginalidade urbana.
E mesmo que um dia o façam, mesmo que finalmente acordem e percebam que não há outra saída senão meter mãos à obra, espero que não repitam os erros do passado. Não se trata de repetir os bairros sociais de má memória, desenhados para isolar em vez de integrar. Trata-se de fazer diferente e melhor. Porque as pessoas que hoje precisam de casa não são só mais, são também diferentes. Têm outras culturas, outras formas de habitar, outras formas de usar o espaço comum. E isso também tem de entrar na equação.
Mas até lá, só ouvimos a negação. A negação dos números, a negação das urgências, a negação dos factos. Como se fosse possível resolver um incêndio com powerpoints e fé no mercado. Pois bem: como se vê, não é.
Construam. E depressa.