Via Nun’Álvares 2025, 100 anos de solidão urbanística

Não vou aqui perder tempo com comentários sobre o procedimento da Câmara, nem alimentar as suspeitas de corrupção e negociatas que fervilham nas redes sociais. Não me interessa. O que me interessa é a cidade. Esta cidade. E este bairro em particular.

Percebo o dilema da Câmara. Para destravar uma área gigantesca, com dezenas de proprietários, foi preciso negociar e chegar a um entendimento. E o resultado foi este: um projecto que, em termos urbanos, vale pouco. Uma solução de compromisso.
Percebo, mas não aceito.
Não aceito o desenho.
Não aceito a forma como está a querer ser imposto.

Porque o que aqui se vê não é uma ideia de cidade. É apenas uma avenida fora de escala, ladeada de casas e prédios, atravessando um bairro residencial como se fosse uma VCI em miniatura. E duas ou três manchas verdes, que de verdes têm o nome, porque servem apenas de emolduramento às ribeiras que aparecem e desaparecem como se fosse um truque de ilusionismo. Tudo isto a culminar em torres, erguidas não por necessidade urbanística, mas para que o negócio fosse viável e os proprietários aceitassem. Pergunto: onde está a cidade? Onde está a Foz?

Convém lembrar uma coisa óbvia: uma Avenida não faz cidade.
Uma Avenida, por definição, é uma ligação estruturante entre dois pontos da cidade. Esta, porém, não o é. Seria, sim, se no seu lugar estivesse prevista uma linha de transporte público, essa, sim, necessária. Uma linha que viesse desde Matosinhos, enterrada, atravessando sob o Parque da Cidade, seguindo em direcção ao centro do Porto, cruzando as linhas existentes, e passando, obrigatoriamente, pelas faculdades e pelos hospitais. Essa é a linha que faz falta, a que devia ser estruturante e uma das principais de toda a área metropolitana.

Mas não. O que se propõe aqui é apenas uma avenida que liga a Praça do Império à Avenida da Boavista. E, quem sabe, talvez ainda surja algum iluminado a imaginar nela a passagem de um “Metrobus”.
A cidade faz-se de lugares para estar, não de corredores de passagem. Esta avenida devia parar. Interromper-se. Abrir pracetas, como a do Cristo Rei, onde há comércio, equipamentos, vida de bairro. Espaços de encontro, não de atravessamento.
As tais áreas verdes, que se anunciam como contrapartida, não passam de parques de bolso, sem escala nem futuro, ainda por cima tão próximas ao Parque da Cidade. Para quê? O que fazia sentido eram praças ajardinadas, pequenos parques com equipamentos, distribuídos de forma a ligar com o Parque e a equilibrar o conjunto. Assim, sim.

E depois há o vício recorrente: casas geminadas, essa moda que mistura a moradia com o prédio. Arquitectonicamente até podem ter interesse, mas quando se repetem em série tornam o território monótono e previsível. Falta diversidade, e a diversidade é a alma de qualquer cidade.

Finalmente o que todos reclamam: as torres. O elefante no meio da sala, no sentido literal do termo. Não tenho nada contra a construção em altura, bem pelo contrário. Mas aqui, não. Aqui não faz sentido. Não há escala, não há proporcionalidade.
Não me parece que o argumento da densificação justifique a permissão para torres desta escala, falta contexto, falta enquadramento. A sua dimensão devassa um bairro de tradicional baixa altura, quebrando a escala urbana e ferindo a sua identidade.

A história da Nun’Álvares já vai longa. Planos não faltaram. Uns atrás dos outros, sempre encalhados, sempre adiados. E a razão é invariavelmente a mesma: ninguém consegue pôr de acordo os proprietários, a Câmara e a população. Soluções? Há. Sempre houve. O que não há e, isso já se tornou regra, é uma Câmara capaz de fazer o óbvio: dar qualidade urbana, gerir um diálogo decente e chegar ao fim com um consenso que sirva a cidade.

Entretanto, preparem-se: aproximam-se eleições e os candidatos vão agarrar-se ao tema como se fosse a última moda do Verão. Promessas não vão faltar, lenha para a fogueira também não. E no fim, como sempre, a cidade continuará a adiar para mais uma década aquilo que já leva quase um século sem resolver.

Anexo aqui um texto que escrevi em 2007, aquando do anterior plano e do trabalho feito com a Junta de Freguesia. Vinte anos depois, o que mudou? Nada.

É extraordinário. Normalmente, em vinte anos, até uma pedra aprende qualquer coisa. Um cão aprende truques novos. Uma criança aprende a falar, a andar, a multiplicar e, se tiver azar, a usar TikTok.
A Câmara Municipal depara-se com a mesma situação durante vinte anos e consegue a proeza de não aprender absolutamente nada. Diz-se muitas vezes que a experiência é uma grande professora. Neste caso, a experiência dá aulas, a Câmara falta e ainda consegue chumbar por faltas.

No fundo, a Via Nun’Álvares é como aquelas séries que nunca mais acabam: muda-se o genérico, mudam-se os protagonistas, mas a história é sempre igual. E nós cá estamos, espectadores pacientes, à espera do episódio final.

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