
I. REGRESSO AO FUTURO
Antes de irmos ao que interessa, uma breve explicação do título. A 27‑07‑2024 publiquei um primeiro post sobre este assunto intitulado “Avenida da Ponte: Regresso ao Futuro”. Pareceu‑me então apropriada esta homenagem ao filme de Robert Zemeckis que marcou a cultura pop dos anos 80, porque, basicamente, a premissa era a mesma: tal como Marty McFly regressa aos anos 50 para restabelecer o futuro, a Câmara propõe‑se a restabelecer o futuro daquela zona da cidade, voltando a 2001 para recuperar o projecto de Siza Vieira. Só que aqui, em vez de um DeLorean, a máquina do tempo será um projecto de loteamento. Há também outra grande diferença: ao contrário do herói do filme, a missão do Siza não é voltar ao passado para restaurar o futuro, mas sim modificar o rumo desse futuro. Quero dizer com isto: o projecto de 2025 nunca seria uma evolução do projecto de 2001, por força do programa, que apesar de vago, apontava para uma direcção completamente nova. Para este post, mantendo‑me dentro do mesmo universo fílmico, optei por resgatar as palavras de Doc Emmett Brown no final de “Regresso ao Futuro III” (1990), que merecem ser aqui transcritas na íntegra: “It means your future hasn’t been written yet. No one’s has. Your future is whatever you make it. So make it a good one”, porque resumem a situação em que nos encontramos. Isto é, não me parece que este resgate do passado tenha sido bem‑sucedido, e teremos de voltar a pensar e a fazer tudo de novo.
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Em parte porque a evolução da relação dos portuenses com a Baixa e Centro Histórico se aproxima cada vez mais da relação que têm com as zonas industriais; isto é, sabem que existem, onde se situam, que são muito importantes para a economia, mas nem lhes passa pela cabeça frequentarem essas bandas da cidade a não ser que lá trabalhem ou o GPS lhes pregue uma partida (nesta circunstância, a escolha do arq.º Siza Vieira parece adequada: começou a apresentação reconhecendo que não ia àquela zona há muitos anos); e, em parte, porque o projecto apresentado é, à primeira vista, uma espécie de urbanismo morno, sem grandes rupturas e sem edifícios ostensivos ou volumetrias “em esteróides”). Na verdade, é um projecto muito conservador, lacónico até. A arquitectura, nesta fase, tratando‑se de um projecto de loteamento, ainda não se encontra totalmente fechada, mas a intenção declarada é a de que existirão soluções mais convencionais e outras que explorem uma linguagem mais contemporânea. Em todo o caso, nada disso será aqui discutido. Não irei discutir a arquitectura propriamente dita, até porque haverá ainda muito por definir, adianto apenas que é clara a contenção da volumetria que procura harmonizar com a envolvente, bem como a métrica e a dimensão da maior parte dos lotes, fazendo eco da arquitectura tradicional do Porto. Também parece clara a intenção de fazer coabitar uma linguagem mais convencional no tratamento das fachadas, incluindo a cobertura com telha, com uma linguagem mais contemporânea, com alçados rasgados por vãos horizontais e até mesmo panorâmicos e coberturas planas. A minha primeira reacção ao observar os painéis e a maquete expostas no átrio da Câmara Municipal foi precisamente: “Onde é que está o resto?” Por estas e talvez por outras razões que aqui não importam, a proposta foi recebida com uma compreensível indiferença pelos portuenses. Nem sequer um “mas” ou um esboço de questionamento. À primeira vista, dizia eu, não há ali muito a dizer. A proposta parece ter sido concebida seguindo o objectivo único de não chatear. Para nos chatearmos, temos de olhar para os detalhes. Antes de irmos a isso, deixo uma descrição telegráfica da proposta (recomendo, ainda assim, que visualizem o vídeo da apresentação):
A. Existente a manter
- Traçado da Avenida
- Escarpa (nascente) e afloramento rochoso (poente)
- “Buraco” do mercado de levante e viaduto de acesso à Rua Escura
- Acessos ao Metro
- Calçada da Vandoma
- Espaço ajardinado (com algumas adaptações)
B. Existente a demolir
- Mercado de São Sebastião (a demolição já ocorreu, num processo paralelo ao loteamento);
- Rua Tareja Vaz de Altaro, que faz a ligação ascendente da Avenida ao Terreiro da Sé
- Parte da calçada pedonal da Avenida da Ponte para dar lugar a estacionamento de duração limitada
C. Elementos a construir
- Edifício 1 (Travessa de São Sebastião, na antiga localização do Mercado de São Sebastião): habitação, comércio e um equipamento, distribuídos pelos lotes 1 a 4
- Edifício 2 (Rua Chã / Avenida da Ponte): habitação e comércio, distribuídos pelos lotes 5 e 6 (Nota: prevê‑se a deslocação do ecoponto para o lado oposto da rua, em frente de edifícios históricos)
- Edifício 3 (Rua Corpo da Guarda / Avenida da Ponte): habitação e comércio, distribuídos pelos lotes 7 e 8
- Edifício 4 (Avenida da Ponte / Rua do Loureiro / Praça Almeida Garrett / Avenida da Ponte): Equipamento de Domínio Público (miradouro)
- Trinta e nove lugares de estacionamento de duração limitada, distribuídos ao longo da Avenida da Ponte
- Fonte barroca a transplantar dos Jardins do Barão de Nova Sintra para o largo junto à Travessa de São Sebastião (aprox. onde era a frente do Mercado)















II. HABITAR · CIRCULAR · FRUIR
HABITAR
Contabilizei um total de 35 habitações – algumas fontes indicam 22 habitações – e 13 espaços comerciais. Vamos incluir aqui o comércio, já que as condições de habitabilidade de uma cidade estão diretamente relacionadas com a oferta de comércio e serviços de proximidade, embora tenhamos perfeita consciência de que estes espaços acabarão por ser capturados por actividades associadas ao turismo, as quais, por norma, não contribuem para a melhoria das condições de habitabilidade urbana. Voltando à habitação propriamente dita: apesar da diversidade de tipologias, o número previsto de fogos é manifestamente escasso. Mesmo mantendo a premissa de um espaço ajardinado para fruição pública, teria sido possível incrementar a oferta, edificando do lado da escarpa. Todavia, o autor do projecto insiste, tal como em 2001, em manter à vista a escarpa que resultou do rasgão aberto nos anos 40 para a abertura do arruamento. Esta teimosia, quanto a mim, compromete o propósito do próprio projecto. Mantendo aquela empena rochosa ao longo margem da avenida, não se criam as condições para o desenvolvimento de uma vivência de bairro, o que é pena, dada a centralidade, a existência do espaço verde e a possibilidade teórica de uma boa gestão das áreas comerciais (usos combinados). Tal como está, o ambiente fica demasiado rarefeito. Para além das questões de insegurança e conforto urbano, os futuros moradores dos poucos apartamentos terão poucas hipóteses de desenvolver redes de vizinhança e sociabilidade, porque não haverá massa crítica para tal, para além de se tratar de uma zona densamente explorada pelo turismo. Ora, uma das formas de contrariar os excessos do turismo sem liquidar o próprio turismo é potenciar as outras funções urbanas do território. Acredito que aumentar a função residencial não só não prejudica, como também torna a oferta turística mais interessante e consistente. Creio que toda a gente, sem excepção, prefere visitar cidades habitadas em vez de cascos urbanos vazios e abandonados ao monopólio da indústria turística. Não devemos ter medo de urbanizar (e urbanizar não significa necessariamente apenas edificar) e de habitar o centro das cidades. Afinal de contas, foi para isso mesmo que estas foram inventadas. Neste caso concreto, bastaria ao arquitecto fazer melhor uso da máquina do tempo e recuar até 1968, recuperando o primeiro projecto, no qual propunha construção precisamente naquela localização.














CIRCULAR
Vamos subir um pouco, passar através do gargalo dos Congregados, com o passeio pejado de turistas, e vamos espreitar uma outra obra do Siza, a Avenida dos Aliados. É certo que tem os seus detractores, mas nem por isso deixa de ser um espaço urbano que transmite nobreza e dignidade. O trânsito passa de um lado e do outro porque tem de passar, mas apenas os transportes públicos, num ponto ou noutro, é que podem parar. Estacionar está completamente fora de questão. É verdade que existem lojas, restaurantes, hotéis, serviços vários, escritórios, os paços do concelho e até mesmo apartamentos. Nem por isso o arquitecto se lembrou de criar estacionamento, como já houve no passado, ao longo dos Aliados. Parece consensual que, numa avenida destas, com a sua monumentalidade e simbolismo, o estacionamento não faz qualquer sentido, até porque, para além do mais, existem ali bocas de acesso ao Metro. Voltando a descer, de regresso à Avenida da Ponte, o cenário já será outro. Apesar de se tratar de uma zona central, de grande monumentalidade — aliás, particularmente sensível nesse aspecto por já se encontra dentro do perímetro do Centro Histórico classificado como Património da Humanidade — e de também ser dotada de uma estação de Metro central, também desenhada pelo mesmo autor, a opção já foi outra. Neste caso, a máquina do tempo do arquitecto foi umas boas décadas atrás, ao tempo em que o automóvel era rei e senhor e tinha direito de pernada sobre o espaço público, e trouxe consigo a ideia peregrina de criar 39 lugares de estacionamento ao longo da avenida, de um lado e de outro.
Imaginem como seria a Avenida dos Aliados se, alinhadas pelas bocas do Metro, tivessem sido desenhadas aí baías de estacionamento. Seria uma espécie de dissonância cognitiva, certo? Pois é isso que acontece na Avenida da Ponte. Convém esclarecer que estes lugares não se destinam a moradores. Serão lugares de estacionamento de duração limitada, destinados a quem vem de fora. São um convite para se trazer o automóvel até ao centro da cidade. Quando todas as boas práticas recomendam o desincentivo ao tráfego automóvel dentro dos centros urbanos, condicionando o estacionamento nessas zonas e incentivando o recurso a parques periféricos associados à rede de Metro, aqui, pela vetusta Civitas Portucalensis, constroem‑se dispendiosas estações de Metro no umbigo da cidade para depois, literalmente por cima, criar parques de estacionamento. “Para onde vamos, não precisamos de estradas”, dizia o Doc Emmett […porque podemos lá chegar de Metro! acrescento eu].
Se mais ninguém vê aqui uma incongruência de todo o tamanho, pois deixo desde já a minha caneta e vou dar de comer aos pombos, porque não ando aqui a fazer nada. Privilegiando‑se o automóvel, perdem os peões, que perdem uma boa parte do passeio; perdem os turistas, que vão perder parte das vistas com aquele obstáculo automobilizado; perdem os STCP as paragens; perdem os ciclistas, porque não está prevista qualquer via ciclável; e perdemos todos nós alguma dignidade por tratarmos aquela zona tão histórica e culturalmente sensível como se fosse uma rua secundária em Paranhos. Esta solução parece também de difícil compatibilização com o Plano Diretor Municipal em vigor. O PDM classifica esta avenida como “Eixo Urbano Complementar” e vale a pena consultar o ponto 4 do Artigo 110.º do Regulamento do Plano Diretor Municipal para ver o que este diz quanto ao que está previsto para os eixos complementares: “A criação de corredores dedicados a bicicletas e veículos equivalentes deve concretizar‑se, preferencialmente, por eliminação de estacionamento e sem prejuízo do sistema pedonal e da arborização”. Siza propõe precisamente o contrário.
Já que estamos a falar de estacionamento, falemos dos residentes. Ao mesmo tempo que se criam lugares de estacionamento destinados ao fluxo temporário de trânsito de fora para dentro da cidade, os residentes permanentes continuam a não ter uma solução. Actualmente, os moradores na Sé, Dom Hugo, Escadas do Barredo e arredores vão estacionando as viaturas de forma improvisada nos arruamentos estreitos. Não é, como é óbvio, uma solução satisfatória para ninguém. Era importante libertar o espaço de superfície, não só pelo elevado valor cultural e económico de toda a envolvente, mas também por razões de segurança e limpeza urbana. Não raras vezes o camião de recolha do lixo não consegue transitar porque tem a via bloqueada pelas viaturas dos residentes e, para além disso, se até ao momento fomos poupados a incêndios naquela área, mas quando estes acontecerem, os bombeiros dificilmente conseguirão aceder ao local e o local é, recordemos, uma área classificada como Património da Humanidade. Se actualmente a situação de risco já é crítica, previsivelmente irá complicar‑se nos próximos tempos com o número de empreendimentos previstos naquela zona, os quais, inevitavelmente, irão sujeitar os arruamentos a uma maior pressão para a qual não estão preparados.
Numa rápida pesquisa, é possível identificar uma série de empreendimentos que estão em pipeline e que irão agravar as condições existentes: 1) Se tudo correr conforme o previsto, a IDS Group inaugurará uma residência de estudantes com capacidade para 105 quartos no conjunto Bainharia/Rua Escura/Pena Ventosa/São Sebastião; 2) Até ao final de 2027, na Rua dos Pelames, abrirá uma nova unidade de alojamento, totalizando 32 apartamentos T0 e T2; 3) Também em 2027, a Diocese, que não resiste em pôr a mão no maná do turismo, conta abrir o Hotel Maior no Seminário Maior, com capacidade para 55 quartos; 4) Em fase de conclusão já se encontra o novo Hotel Alaia (não foi possível identificar o número de quartos) na Rua Dom Hugo e, na mesma rua, mais adiante, avança um empreendimento para mais 16 apartamentos, para além de uma ou outra obra de menor dimensão; 5) Também parece que, finalmente, irá avançar a operação de reabilitação da Unidade de Intervenção de Santa Clara (aprovada em 2012!), também vocacionada para habitação pública. Existem muitos outros processos em planeamento, projecto e execução e, se alargássemos um pouco o raio, teríamos de incluir também outros exemplos, tais como o novo Hotel Arnaldo (40 quartos) no Largo Actor Dias ou, em frente, a ampliação das instalações da Universidade Lusófona (com projecto de Souto Moura). A listagem não é — nem pode ser — exaustiva, mas já é mais do que suficiente para se perceber que toda a zona sul e nascente do Morro da Sé e áreas adjacentes ver‑se‑á, muito em breve, sujeita a uma pressão enorme em termos de circulação e, sobretudo, estacionamento, até porque, dada a localização, todos estes empreendimentos estão isentos da obrigatoriedade de serem dotados de garagem própria. É particularmente complexa a situação dos moradores, que terão cada vez mais dificuldades em estacionar, e o caos e as tensões entre os diversos usos inevitavelmente irão ocorrer. O projecto da Avenida da Ponte também deveria ter servido para encontrar uma solução para este problema. Em vez disso, propõe estacionamento para não residentes. Sobrecarregar toda esta zona histórica sem, de uma forma planeada, se antever esta questão é uma falha grave de planeamento.
FRUIR
Neste capítulo, importa apenas de dois pontos: Jardim & Miradouros. De fora fica o comércio/serviços, que poderá eventualmente ter alguma componente de fruição, mas que, a esta distância, não dá para antecipar, sendo que o mais expectável é que se resuma a lojas de souvenirs, pelo que dificilmente teria aqui cabimento. O jardim poderia ser o elemento urbano nuclear na construção de uma comunidade local. Todavia, a proposta do arquitecto paisagista Sidónio Pardal, pelo seu carácter lacónico, faz pendant com o resto do loteamento. Apenas remove as magnólias e planta algumas espécies de árvores e arbustos no topo sul, mantendo o relvado. A descrição que fez durante a apresentação é muito esclarecedora quanto ao pensamento e ao propósito. Trata‑se, afinal, de afinar a perspectiva e de conferir uma leitura visual equilibrada. Ou seja, o jardim aparece como um elemento de um dispositivo que aborda a cidade em modo postal turístico, em modo panorama. Não é para se viver; é para se olhar e fotografar.
O que nos impede de ter ali um espaço público para verdadeiro usufruto da comunidade local e, em simultâneo, daqueles que nos visitam? Não podemos ter ali um espaço de intersecção cultural e social em vez de um insípido relvado a fazer de moldura? Em primeiro lugar, é obrigatório implantar ali um parque infantil — mas não um daqueles parques tristes e pindéricos que vão sendo consentidos às cidades portuguesas em geral. É preciso tirar lições do Parque do Covelo, que é, hoje, um dos sítios mais vivos, com maior diversidade social e cultural, e local de encontro de gerações; e a chave está no facto de se tratar de um equipamento dotado de um parque infantil de grande dimensão e de grande qualidade. As famílias são capazes de atravessar a cidade, ou até mesmo vir de fora dela, para passarem ali uma tarde de sábado com as crianças. O espaço está suficientemente bem desenhado para permitir que a criança brinque livremente com outras crianças, enquanto os adultos conversam nos bancos com outros adultos ou leem um livro à sombra de uma árvore. Não é um mero parque infantil, mas um lugar onde são criados laços sociais e forjados parte dos pequenos elos que dão coesão à sociedade. (À parte: É uma estupidez de todo o tamanho manter a Biblioteca Infantil Pedro Ivo no Marquês, quando é aqui, no Covelo, que há a maior concentração de crianças da cidade. Biblioteca Infantil do Covelo é uma ideia tão óbvia e natural que até custa a perceber como ainda ninguém se tenha lembrado disso).
A actual Câmara delineou uma estratégia para o turismo que consiste em disseminar os fluxos turísticos para o resto da cidade, numa tentativa de aliviar a pressão da zona central. Esta estratégia, destinada ao fracasso logo à partida, consiste em efabular narrativas temáticas em torno de entidades territoriais ficcionadas a que, de forma abusiva, chama “Bairros” (Bonfim — Bairro da Criatividade e Juventude, Baixa – Bairro da Gastronomia, etc.)). Em suma, o objectivo é transformar toda a cidade num pacote turístico; isto é, uma abordagem inspirada no princípio hipocrático da similia similibus (curar o semelhante com o semelhante), neste caso combater o turismo com mais turismo. Em contraponto, acredito que seria mais inteligente seguir a via contraria contrariis curantur, isto é, curar pelo contrário. Assim, em vez de metastizar o turismo por toda a cidade, a estratégia deveria ser trazer mais cidade — isto é, mais habitação, mais serviços, mais espaço público com valor social — para o centro hiperturistificado Como em muitas abordagens terapêuticas, não se trata de erradicar o mal, mas aprender a viver com o mal com qualidade de vida.
Neste sentido, em vez de um relvado que servirá apenas para enquadramento panorâmico e para turistas se estirarem, façamos antes um jardim que apele à criatividade e à fruição comum: um jardim com um parque infantil de referência, que atraia famílias para ali fruírem de uma experiência urbana total, onde o encontro com o outro, com outras classes sociais, com outras gerações, com os imigrantes e com os turistas. Todos têm crianças e as crianças são universalmente um dos maiores pretextos para que diferentes culturas encontrem pontos de contacto. Encontremos também forma de providenciar pequenos equipamentos que sirvam os adultos, como, por exemplo, bancos de jardim, campo de chinquilho/jogo da malha para torneio tugas × camones, um quiosque que empreste jornais em papel em diversas línguas. Também seria prudente repensar o perfil da avenida. Não tem, de facto, de ser aquela rampa em linha recta que convida à aceleração. Pode ter um perfil mais suave; pode ser redesenhada a fim de integrar a Rede 20, para a tornar mais compatível com a circulação pedonal e micromodal, mais adequada aos usos que aquele território hoje já tem. Tenho como referência o incrível Maggie Daley Park, em Chicago, ou, numa outra abordagem, o Superkilen, em Copenhaga. Para os parques infantis, não devemos exigir nada menos do que qualquer coisa como os parques concebidos pelos dinamarqueses da Monstrum. São equipamentos que são verdadeiros hinos à imaginação, verdadeiramente irresistíveis. E, se tivermos de fazer a vontade ao arquitecto e manter à vista a escarpa, transformemo‑la numa climbing wall ou num jardim vertical como o MFO Park em Zurique; ou, se tivermos de engolir os miradouros (já lá vamos), então que estes sejam dotados de escorregas. Pensemos em pequeno: se desenharmos o território a pensar nas crianças, a cidade virá por arrasto.













Falemos então dos miradouros. Depois da torre‑miradouro do Souto Moura na Estação de São Bento, depois de a Câmara ter desclassificado o Elevador da Lada como equipamento de transporte público, reclassificando‑o como equipamento turístico por via das suas “vistas únicas”, passando a cobrar 2 € pela voltinha, Siza Vieira propõe, não um, mas dois miradouros. Um deles situa‑se do lado da Rua Chã, associado aos lotes 5 e 6 do loteamento, com passagem estreita entre dois edifícios que desemboca num balcão plantado sobre a escarpa. A primeira questão que nos surge é: “Para quê?”. Não há nada que este possa oferecer que não seja visível a partir de qualquer outro ponto da envolvente. Nem sequer se trata de um ponto particularmente elevado. Parece tratar‑se de um apontamento gratuito, sem qualquer propósito. Em termos práticos, pela sua configuração, não é difícil prever que rapidamente se transformará num pesadelo de manutenção, porque acabará por ser ocupado por toxicodependentes, sem‑abrigo, e usado como urinol público (no que diz respeito a estes urinóis e defecatórios informais, para perceberem do que se fala, vejam, mesmo ali ao lado, a Travessa da Rua Chã ou, um pouco mais longe, as escadas de acesso ao Elevador da Lada). Trata‑se de mais uma daquelas situações em que acabará por ser necessário colocar portões para controlar o acesso, ou seja, mais um espaço público enclausurado, tal como muitos outros de que já aqui tenho abordado.
Ainda mais difícil de explicar é o Edifício 4: uma pequena torre de r/c+4 erigida de forma solta por cima da entrada para o Metro do lado da Rua do Loureiro e cujo único préstimo é não prestar para nada. Basicamente, numa palavra, é um miradouro. A situação deste edifício tem o seu quê de paradoxal: serve para ver as vistas, mas essas vistas podem ser vistas de qualquer outra perspectiva a partir da envolvente; e o edifício que serve para dar vistas dá demasiado nas vistas, porque vai tapar a vista da Estação de São Bento e, ali plantado, o volume também tapará as vistas da Sé a quem estiver a apreciar as vistas a partir da estação. Um miradouro que nada nos dá a mirar e que, ao mesmo tempo, nos impede de mirar o que já lá está. De certa forma, há aqui uma tradição a manter. Também a Casa dos 24, a casa‑torre erigida por Fernando Távora, carece de propósito justificativo, com uso ainda e sempre indefinido. Esta sequência das casas‑torre da Escola do Porto — Távora‑Siza‑Souto Moura — faz‑me lembrar as torres‑memorial da antiga Pérsia (a mais célebre, o Gunbad‑i Qabus, celebra o emir calígrafo cujo corpo, segundo a lenda, flutua no meio do ar dentro da torre). Não sei o que se passará no nosso inconsciente colectivo para desatarmos a erigir estes monumentos sem objecto e sem propósito. Mas, enquanto penso nisto, a memória escorrega‑me para a mania do Panorama no século XIX. Um panorama era um dispositivo de entretenimento, uma atracção paga, que oferecia ao público uma vista contínua de um tema (batalhas, cidades, paisagens), pintada em tela de grandes dimensões. O espectador, colocado num palco central elevado, via a cena envolvente sem perceber os limites da pintura, graças à iluminação controlada e a truques de perspectiva. Em suma, uma máquina de ver que prometia ao público a sensação de “estar lá”, comprimindo o mundo numa imagem total. Sobre o panorama, diz Walter Benjamin que “O interesse pelo panorama é o de ver a verdadeira cidade – a cidade dentro de casa” (Benjamin, Walter – As Passagens de Paris, Assírio & Alvim, 2019, p. 663). O que Siza propõe é uma casa para albergar a vista sobre o postal turístico, através da qual a paisagem urbana é enquadrada como mercadoria visual, mas, por estar elevada, devidamente distanciada da cidade real, oferecendo uma visão controlada sobre esta, oculta tudo o resto, produzindo uma fantasmagoria. O miradouro é uma ratoeira para o flâneur e para o seu vagar crítico sobre a cidade, substitui‑o por uma experiência estática, padronizada, dirigida, que resulta da selecção de ângulos, da abertura de vãos panorâmicos que produzem a perspectiva “instagramável”. Uma cidade pronta a consumir, uma comodidade atmosférica agregada aos restaurantes que servem “experiências” ao almoço, aos hotéis‑boutique e a tudo aquilo que constitui o ecossistema do consumo turístico massificado. Uma cidade que até vai enxertar uma fonte barroca para ajudar a compor o postal. A imagem da cidade fica congelada como presente eterno; os monumentos — a catedral, a estação de caminho‑de‑ferro, o casario histórico — perdem espessura, dissolvidos numa selfie. Esta casa‑torre‑miradouro tem qualquer coisa de phony, de inautenticidade — uma cidade que finge ser aquilo que, no fundo, não é. Cidade que é cidade não vende ilusões, não é fantasma de si própria. Todavia, não foi certamente por acaso que, num outro apontamento, Walter Benjamin cita Baudelaire: “Essas coisas, por serem falsas, estão infinitamente mais próximas do verdadeiro” (Benjamin, Walter – As Passagens de Paris, Assírio & Alvim, 2019, p. 667). Talvez seja essa a nossa nova natureza: habitamos como fantasmas uma cidade‑miradouro.
III. VISÃO
Deixemos para trás as divagações e voltemos ao essencial. Não é sem alguma pena que devemos reconhecer que este projecto tem mais insuficiências do que soluções. Não me parece, infelizmente para o arq.º Siza Vieira, que à terceira seja de vez. Devemos reflectir no próprio modelo seguido para se redesenhar esta parte da cidade. Entregar, sem concurso e sem um programa previamente discutido, uma fatia da cidade a um arquitecto, por mais genial que este seja, para dali fazer o que lhe aprouver, não é uma boa metodologia. Não é o Siza, fechado no seu gabinete, quem vai encontrar a melhor solução. O processo tem de ser aberto: devem ser convocados outros especialistas de outras áreas científicas, como a sociologia, a geografia e a história, para uma discussão e delimitação de um programa. É preciso envolver residentes e portuenses, em geral, no processo. E, depois, podem abrir as portas aos arquitectos. Se este projecto de loteamento não nos satisfaz, então o que queremos para ali? Creio que consigo sintetizar em cinco pontos:
- Mais habitação;
- Um jardim para todas as gerações, mas a pensar, em primeiro lugar, nas crianças;
- Estacionamento exclusivo para residentes;
- Redesenho do perfil da Avenida, integrando‑a na Rede 20;
- Dispensamos os miradouros.
Acabo como comecei; isto é, volto a citar “Regresso ao Futuro III”: o futuro ainda não está escrito. Ainda vamos a tempo de fazer qualquer coisa melhor do que isto.