Desde o primeiro dia me opus ao Metrobus da Boavista. Não foi por falta de argumentos ou de textos escritos, eles estão por aí, publicados em vários lados, mas porque me parecia evidente que um projeto desta natureza, pela sua escala e pelas suas características, só poderia destruir a malha urbana numa das zonas mais consolidadas da cidade. Acresce que o traçado escolhido serve poucos e, por isso mesmo, nunca acreditei nos números de 22 mil validações diárias anunciados com pompa e circunstância.
Um ano depois da conclusão da primeira linha, após meses de obras numa das principais artérias do Porto, o Metrobus continua parado. O que começou por ser motivo de crítica, e até de chacota, transformou-se numa bandeira de incompetência. Não apenas da Metro, que não consegue justificar as opções tomadas, mas também da Câmara e da STCP, que se entretêm em diálogos de surdos enquanto deixam um investimento de 50 milhões parado no meio da Avenida. Chamar a isto “ridículo” é pouco.
A palavra certa é “vergonhoso”.
E, no entanto, a segunda fase do projeto já arrancou. Não porque a primeira tenha mostrado resultados, não mostrou, porque nem sequer funciona, mas porque há prazos de financiamento comunitário a cumprir. É assim que se faz política em Portugal: não se planeia, não se avalia, não se decide em função da utilidade pública.
Cumpre-se calendário.
Reconheço, para ser justo, que do ponto de vista técnico o trabalho foi exigente. Compatibilizar soluções, responder a solicitações, integrar condicionantes complexas, tudo isso não é coisa menor.
Mas do ponto de vista político, o caso é de uma vergonha absoluta. O Metro avançou com uma solução sem futuro. A Câmara, que acompanhou tudo desde o primeiro minuto, incluindo diversos pedidos como, por exemplo, o pedido de abate das árvores da Avenida, recuou quando percebeu o desastre em que estava metida e a opinião pública, que se tem vindo a ouvir cada dia mais alta. Fez de conta que nada tinha a ver com o assunto. A STCP, empresa que simboliza o último grito dos anos 50, seguiu o mesmo caminho: cabeça na areia, como se não tivesse nada a ver com a mobilidade da cidade. E os candidatos à Câmara, naturalmente, aproveitam para cavalgar o escândalo, esquecendo apenas um detalhe: o embaraço é de ambos os partidos que disputam o poder.
E chegados aqui, porque há que dar um fim a este descalabro, restam apenas duas hipóteses: ou concluímos o projeto, convivendo com mais trânsito e menos alternativas reais ao transporte individual; ou paramos de vez com esta imbecilidade, devolvemos o dinheiro a Bruxelas e temos finalmente a coragem de desenhar um plano de mobilidade que sirva não apenas o Porto, mas toda a Área Metropolitana. Há que decidir e depressa, não adianta continuar a olhar para o lado.
Mas o Metrobus não passa de um sintoma. O problema de fundo é outro: é tribal. Metro, STCP e agora a UNIR vivem como reinos separados, não falam entre si, culpam-se uns aos outros e sobrevivem sem estratégia comum porque o regulador faz aquilo a que já nos habituámos: olha para o lado.
As Câmaras, por seu turno, culpam o Estado. E o Estado, como seria de esperar, culpa as Câmaras. Veja-se a Circunvalação: nenhum dos municípios quer recebê-la sem obras feitas, mas todos se queixam da IP. Veja-se a VCI: o ministro da “Luz” promete uma solução que não resolve nada e ainda aponta o dedo à Câmara de Matosinhos, não fosse ela governada pelo partido errado.
Tudo isto é, no mínimo, ridículo. Assistimos, dia após dia, à pantomina da nossa administração pública, onde cada mudança de cadeira, cada saída anunciada, transforma-se num pequeno espetáculo de ineficiência. Hoje foi a Administração da Metro que se evaporou no ar, como se o problema pudesse desaparecer com eles; amanhã, a da Câmara, com a pompa habitual de quem parte para novos destinos, e, um dia destes, a STCP seguirá o mesmo caminho, deixando atrás de si apenas planos incompletos, projetos a meio, e a certeza amarga de que nada muda realmente.
É impossível não sentir um certo desalento: tudo parece condenado a morrer na praia, engolido por uma sucessão de direções e mandatos que se sucedem sem qualquer continuidade, sem qualquer sentido de responsabilidade para com quem, no fundo, paga a fatura, nós, os cidadãos. E, no meio deste teatro, ficamos nós, espectadores impotentes, a contemplar o desastre anunciado, sempre com a esperança vã de que, quem sabe, um dia alguém consiga finalmente transformar palavras em ação.
E é este o retrato do país: cada um no seu reduto, cada um na sua trincheira, todos a empurrar responsabilidades uns para os outros. Nas próximas eleições não vamos escolher presidentes de Câmara, vamos escolher chefes tribais. Como no futebol.