UM POUCO ANTES
Durante muitos anos andei muito envolvido no processo de reabilitação da cidade, num momento da história recente imediatamente anterior à financeirização e globalização do mercado imobiliário do Porto. Na antemanhã do que veio a ser o mercado imobiliário actual, apostar na reabilitação do património edificado tinha qualquer coisa de excêntrico. Os clientes eram arrancados a ferros e os processos, lentos e complexos. Não sendo arquitecto — mais flâneur do que gestor —, a minha vocação foi sempre vadear e dormir de olhos abertos, colecionando casas que um dia gostaria de habitar ou de dar a habitar a outros. Lentamente, a cidade foi mudando e, quando demos por ela, tudo estava diferente. A Baixa e o Centro Histórico valorizaram-se a um ponto que não poderíamos ter imaginado, nem no pior dos nossos pesadelos. A expressão “a fish doesn’t know it’s wet” exprime bem a minha perplexidade quando verifiquei que, ao contrário das casas, o preço destas não tinha tecto. Mas mudemos de assunto, porque não quero falar de mim, mas da Manuela e do João e do bonito serviço que nos arranjaram em Miraflor.




Creio que terá sido por volta de maio de 2012 que chegou às nossas mãos uma encomenda muito peculiar: um cliente tinha comprado onze armazéns em Campanhã e não sabia o que haveria de fazer com aquilo. A rua era magrinha e tímida, mal dava para passar um carro, e Campanhã, meus senhores, ainda era o extremo-oriente da cidade, terra incógnita para investidores. Uma cidade à parte, assim como a Foz no outro extremo era – e é – uma cidade à parte, embora ao contrário, se é que me consigo fazer explicar. Alguns “especialistas” mediadores imobiliários, que crocitavam à volta do cliente, aventaram que a solução passaria por demolir parcialmente a fachada, abrir mais uns metros os portões para, assim, se conseguir meter o carro lá dentro. Pretendiam que, com esta defenestração colectiva, os imóveis ficariam mais valorizados. Felizmente, o cliente, como qualquer pessoa dotada do mínimo de bom senso, percebeu logo que não era por ali. Fomos então incumbidos de conceber vários cenários funcionais (habitar, trabalhar, habitar-trabalhar) para os armazéns, preservando a identidade do conjunto, bem como todo o material de divulgação, como o website promocional e publicações.
ENTRAM A MANUELA E O JOÃO EM CENA
Mais ou menos pela mesma altura, recebi uma chamada da Manuela a perguntar se conhecíamos algum prédio na Baixa para venda, porque ela e o João traziam na cabeça um projecto de galeria. Convém esclarecer que, apesar de não ser uma imobiliária, um atelier de arquitectura era uma central de informações e, à época, funcionávamos como um verdadeiro hub de tudo o que se relacionasse com reabilitação urbana. O telefonema da Manuela foi um daqueles momentos em que tudo se encaixou como se estivesse inscrito nas estrelas. Respondi-lhe que, na Baixa, naquele momento não estava a ver nada com essas características e que até desaconselhava, porque os preços naquela zona da cidade estavam estupidamente altos (mal imaginava que esses mesmos preços iriam quadruplicar até aos dias de hoje — o que, retrospectivamente e do ponto de vista do investimento e do potencial retorno financeiro, terei dado o pior conselho possível) —, mas que sabia de umas coisas em Campanhã que eram mesmo o que andavam à procura. Já não me recordo exactamente dos passos seguintes, mas sei que o João e a Manuela, quando visitaram o local, se identificaram de imediato com o espaço e com a Rua de Miraflor. Na sequência deste encadeamento de coincidências, ambos tinham memórias familiares daquela vizinhança. Num instante a decisão foi tomada e o negócio, para satisfação do nosso cliente, foi fechado de pronto.
Aquilo que antes eram apenas estudos prévios exploratórios transformou-se numa encomenda urgente e, em cerca de um ano, projecto e obra foram dados por concluídos, dando início à actividade do Espaço Mira e do Mira Forum. E foi a partir daí que a verdadeira história começou.
O MILAGRE DE MIRAFLOR









A primeira exposição ocorreu de imediato, mesmo antes das obras, a 13 de outubro de 2012 (“um encontro inesperado com o diverso”, curadoria de José Maia), ainda com os armazéns devolutos, condições muito precárias e a água da chuva a escorrer pelas paredes. Este foi apenas o primeiro sinal do que aí vinha. Entretanto, os armazéns entraram em obras e, menos de um ano depois, a 5 de outubro, aconteceu finalmente a primeira exposição formal no Espaço Mira (“Demorar”, Nelson D’Aires). A partir daí, seguiu-se uma cornucópia de eventos e acções a um ritmo imparável. Aos dois espaços iniciais — o Espaço Mira e o Mira Forum — juntou-se, mais tarde e na vizinhança, o Mira Artes Performativas. O ritmo foi avassalador e, francamente, invejo a energia da Manuela e do João em alimentarem aquela dinâmica, até porque, como verdadeiros cicerones, fazem questão de estar sempre presentes e de participar em tudo. Com tanta coisa a acontecer, não era difícil perdermos o fio à meada — ou melhor, às meadas —, porque havia várias dimensões que se cruzavam naquele projecto.
No website renovado, apresentava-se um Relatório de Contas que, neste momento, já estará desactualizado: 285 exposições, 80 concertos, 195 conversas/tertúlias, 148 lançamentos/apresentações de livros, 155 performances, 84 conversas online, 59 exposições online, 15 conversas sobre mulheres, 50 passeios fotográficos, 27 filmes e conversas sobre cinema, 33 sessões de poesia, 44 workshops e 34 sessões diversas. Não há, no Porto — e muito provavelmente no resto do país —, nenhuma outra instituição pública ou privada com uma programação cultural e intervenção social tão vastas e ecléticas quanto as Galerias Mira.
***
No meio desta torrente, julgo necessário destacar dois projectos pelo seu valor social e cultural: o Mapa Emocional de Miraflor e o Mesa Comum.

O Mapa Emocional de Miraflor é uma ideia muito “manuelina”. Para quem conhece a Manuela, não estranhará aquela maneira de olhar para um lugar e para o Outro através da metodologia dos afectos. Nada é feito por acaso. Há um conjunto de procedimentos e técnicas utilizados sistematicamente, de forma a cumprirem um desiderato: conhecer — só que esse conhecimento faz-se pelo afecto, pela procura e pela disponibilidade para o Outro.
Este mapa não é daqueles que se penduram na parede com rios, montanhas, regiões administrativas, cidades e vilas, mas sim os trilhos de vida que se cruzam, fazem tangentes, sobrepõem-se uns aos outros, coexistem lado a lado sem se tocarem, mas que, de alguma forma, constituem a paisagem um do outro. O mapa emocional é o tipo de cartografia que um flâneur apreciaria. Nessa cartografia não há norte geográfico — aquela seta que, por convenção, nos diz “Este lado para cima” —, porque todo o território é norte, toda a rua é norte, tal como são norte as casas, a memória, a estação. Norte por todos os lados, menos por um: o lado do espectador que mira de fora e que, dessa forma, se deixava nortear. Um pouco mais de norte e eu era daqui.
O cartógrafo faz o território. Não que esse mundo não existisse antes, mas passa a existir para fora de si, para nós, quando nos é dado — desenhado. O que antes era intuição, meramente suspeitada, é agora um espaço com pontos móveis, as vidas dos que nele se cruzam. O que antes não era, porque vivia na condição da invisibilidade anónima, passa a ser. O registo de imagem e a passagem à forma de letra dos testemunhos de vida dão-nos as coordenadas do território. O mapa não faz o lugar, mas faz o território. Qual a diferença entre lugar e território? Suspeito que o lugar tenha a ver com o novelo das experiências subjectivas e pessoais de quem partilha o espaço na cadência do ritmo dos dias e noites que caem em cima uns dos outros. Território é o lugar traduzido sob a forma de um mapa que lhe confere uma unidade, uma visibilidade, uma voz. Não é uma encenação porque fornece as coordenadas para que ninguém se sinta perdido do lado de fora.

O que é o projecto Mesa Comum? Julgo que o excerto do programa sintetiza muito bem do que se trata e ao que vem:
“Partindo desta realidade social que vivemos no nosso país e nos anos recentes no Porto propomos o projecto: MESA COMUM | o Mundo em Campanhã. Pretendemos aproximar os fregueses de Campanhã dos migrantes, afinal, os vizinhos que desconhecemos, através da gastronomia, por considerarmos que a necessidade biológica diária de comer e a elaboração diferenciada dos alimentos são um dos elementos de ligação mais imediatos.”
O projecto Mesa Comum, celebrando o Outro na sua própria diferença, despertou, neste agnóstico empedernido, uma certa emoção eucarística laica. Partilhar um prato e, mais do que isso, confeccionar a refeição em conjunto é uma profissão de fé no Outro. É preciso ter confiança naquele que nos prepara o que iremos comer. A mão do cozinheiro é sempre sagrada e não há melhor sítio do que a cozinha para cumprirmos o dever universal da hospitalidade; a mesa deve ser vista como lugar de redenção. Não há acto de maior amor do que o acto de cozinhar para o outro. Esta convicção cresceu em mim ao longo da infância, enquanto observava a minha mãe a cozinhar todos os dias para dez filhos e que, mesmo assim, ao domingo, era a primeira a levantar-se para preparar aqueles almoços mais distendidos e desobrigados da rigidez dos horários, durante os quais se comia com o vagar dos arcadianos. Era desse mesmo vagar — longe da histeria das redes sociais e dos populismos do medo — que precisávamos para dialogar com aqueles que nos eram estranhos e, não obstante, vizinhos. Não há cultura sem mesa. Não há comunidade sem partilha. Nunca é demais lembrar que a etimologia de “companheiro” evoca aquele que partilha o pão, ou com quem partilhamos o pão (com + panis).
Dizia Simmel, no breve ensaio “A Sociologia da Refeição”:
“De tudo o que os seres humanos têm em comum, o mais comum é que precisam comer e beber. E é singular que este seja o elemento mais egoísta, que é por sinal o mais imprescindível e imediatamente restrito ao indivíduo. (…) o que se come não pode, de modo algum, ser igualmente comido por outro. Em nenhuma esfera elevada da vida humana pode-se encontrar uma tal situação: de que o que um deva possuir seja absolutamente impossível para o outro.”
Comer é, pela sua natureza, uma necessidade primária “pessoal e intransmissível” e, sendo uma acção que ninguém pode executar por mim (nem eu pelo outro), parece-nos fechar dentro da nossa individualidade animal. Como transpor essa formidável barreira natural que parece nos apartar do Outro e nos condenar a um puro egoísmo? Através da Refeição, processo pelo qual transmutamos um acto inerentemente egoísta numa celebração da comunidade. A sociedade e a cultura começaram com a partilha do pão. Só mais um pouco de Simmel para acabarmos:
“O comer e beber juntos — que para o árabe permite transformar um inimigo mortal desconhecido em um amigo — liberta uma enorme força socializadora, que é tanto obscurecedora do facto de que na verdade não é ‘do mesmo’, mas de porções totalmente exclusivas que se come e se bebe, quanto produtora da ideia primitiva de que se produz, deste modo, carne e sangue comuns.”
Peço desculpa por essa digressão, mas é também a minha forma de celebrar as Galerias Mira. Ando com o tempo um pouco retalhado, mas prometo aparecer por aí um dia destes, nem que seja para a sobremesa e para lavar a loiça — porque isso também faz parte da partilha.
***
Considerei particularmente feliz a escolha da efeméride de 5 de Outubro para abrir as portas do Mira pela primeira vez, porque nos permite celebrar em simultâneo o aniversário da República e o aniversário do Mira: toda a programação parece seguir uma linha de orientação que, de alguma forma, vai ao encontro dos verdadeiros valores republicanos, que são os da solidariedade, fraternidade, liberdade e, sobretudo, do optimismo e da confiança no futuro e no outro — coisa de que estamos a precisar todos como de pão para a boca.
EPÍLOGO
No outro dia, na Feira do Livro, encontrei-vos. Ia com a minha filha e tu, Manuela, disseste à Xica que os amigos dos pais só sabem dizer “estás tão crescida” — e que não ias cair nesse lugar-comum. A Xica sorriu. Eu, que não resisto aos clichés quando são verdade, digo-o sem qualquer problema: como está grande o Mira, João e Manuela!
[Fonte da fotografia de destaque: https://miragalerias.net/]
