








Já tive oportunidade de visitar a nova Praça da República e a impressão com que fiquei foi ao encontro daquilo que já tinha antecipado. Já se sabia que o novo desenho da praça, decalcado dos percursos de atravessamento espontâneos que se haviam formado ao longo do tempo, mas reduzidos, a régua e esquadro no estirador, à expressão de rectas concorrentes que confluem para um centro, lhe confere uma natureza de espaço de passagem: corredores.
Parece-me ter identificado uma tensão entre o transitar/permanecer gerada pela ambiguidade do próprio espaço. Esta tensão é gerada por dois tipos de estímulos antagónicos que conflituam entre si, criando uma certa sensação de estranheza e até mesmo de desconforto. Se, por um lado, são propostos estímulos que convidam ao permanecer — plantando mais árvores e arbustos, instalando mais bancos, para além dos novos muretes que podem ser usados como assentos —, por outro lado também foram apresentados estímulos em sentido oposto, ou seja, que convidam ao transitar. Para além dos corredores (haverá organização espacial mais compulsiva para caminhar em frente, sem parar, do que o corredor?), a inexistência de equipamentos de apoio, tais como casas de banho públicas, parques infantis e mobiliário convivencial — isto é, mesas para actividades lúdicas (como jogar às cartas), ou refeições ao ar livre (o Covid-19 parece já uma memória longínqua), ou simplesmente conversar — acentua o efeito corredor. O jardim não serve para estar, mas para atravessar. Também concorre para esta sensação de estranheza o facto de várias secções ajardinadas e relvadas terem ficado emolduradas pelos muretes de granito já anteriormente referidos, resultando num espaço retalhado por percursos bastante largos, por entre os quais aparecem canteiros, quase “envasados” por muros. Não é, de facto, uma situação apelativa para passeios na relva e contacto directo com o verde. Aliás, esta opção de estilhaçar o espaço em canteiros e de evitar áreas planas e amplas é a regra básica do urbanismo hostil a ajuntamentos, manifestações e concentrações. Sabemos logo à partida que ali não decorrerão concertos, manifestações ou comícios porque o espaço foi desenhado de tal forma que inviabiliza esse tipo de actividade colectiva. E recordo que estamos a falar de uma das maiores praças da cidade… Em suma, a mensagem é confusa: dão-me sombra, mas não posso deitar-me na relva; dão-me bancos e muros, mas isto é apenas uma zona de passagem, de escoamento de tráfego pedonal. Fico com Joe Strummer e Mick Jones, sem saber o que fazer:
One day is fine, the next is black
So if you want me off your back
Well, come on and let me know
Should I stay or should I go?Should I stay or should I go now?
Should I stay or should I go now?
If I go there will be trouble
And if I stay it will be double
So come on and let me know
Estou mais inclinado para acreditar que quem desenhou o espaço quer que fiquemos um bocadinho, mas sem abusos. Não querem cá ajuntamentos e confusões. Não há aqui nada para ver. Toca a circular, circular.
Enquanto por ali andava, ia observando a maneira como o jardim era usado: alguns idosos, solitários, sentados nos bancos a verem o tempo a passar; uma jovem de headphones a passear o cão pela trela; um grupo de turistas a improvisar um piquenique em cima do murete; um avô a ensinar uma neta a andar de bicicleta, ainda com rodinhas; e um pai a acompanhar a filha que se esforçava por dar uso aos patins. Não havia muito mais gente. Um jardim um pouco sorumbático para sábado à tarde. Voltemos às crianças, porque também sou pai de uma menina e porque a arquitecta paisagista que desenhou o novo jardim assegura, no Público, que as crianças são a principal preocupação do projecto:
“No Porto, Praça da República reabre com mais vida e quer esquecer ‘velhos hábitos’.”
“As crianças precisam de saltar, andar de bicicleta e triciclos, ou seja, precisam de um espaço livre. Uma das preocupações foi trazer este espaço de liberdade para o centro da cidade.”
Vamos deixar de parte a questão da opção por não se instalar um parque infantil — o que, para um jardim público que se afirma amigo das crianças, é, no mínimo, bizarro — e voltemos àquelas duas crianças de que falei lá atrás. A que tentava aprender a andar de bicicleta desistiu, tal era a trepidação e os desequilíbrios gerados pelo piso em paralelo. Amuou e ficou pelo banco com o avô, sem saber o que fazer. A outra miúda, que tentava andar de patins, também rapidamente percebeu que nada feito. Ainda não seria desta que teria um bom spot no centro da cidade para patinar. Qual é o problema? O piso em paralelo é demasiado irregular e não se presta a estas diversões. Tal como não é confortável para carrinhos de bebé, cadeiras de rodas, idosos com dificuldades de locomoção, triciclos, trotinetes, skates e até para as pessoas cegas que usam bengalas-guia.

A norma europeia EN 17210:2021 estabelece os requisitos mínimos e recomendações para o ambiente construído, nomeadamente espaços públicos e passeios. A imagem retirada do documento é bastante clara: os pisos devem ser firmes, estáveis, contínuos, com as juntas bem fechadas e antiderrapantes. Creio que ninguém discordará se eu disser que o paralelo em granito irregular (bujardado) à meia-junta não é estável e, muito menos, contínuo. Não é a solução mais adequada para um percurso que pedia um pavimento o mais liso e contínuo possível, existindo no mercado inúmeras soluções técnicas a vários preços, algumas bem mais baratas do que a que foi adoptada. Voltemos novamente às crianças. Se a ideia é que todo o jardim seja um parque infantil, então ainda menos se percebe a opção do pavimento em paralelo. Por algum motivo, os parques infantis de verdade não são pavimentados em pedra — e nem vale a pena explicar porquê. Suspeito que se enveredou por este caminho, essencialmente, por duas razões: a) valorização da estética em detrimento da funcionalidade; b) urbanismo defensivo, isto é, uma superfície lisa seria um convite à comunidade skater para colonizar aquele espaço e, como já vimos, este jardim não foi pensado para se estar, mas para se atravessar.
Por falar em atravessar, o jardim, na verdade, não passa de uma praça-ilha. Ao contrário do que se previa, as intervenções planeadas sobre os passeios da envolvente não foram executadas, tendo sido adida esta parte da empreitada. Mesmo assim, quando forem realizadas estas obras, o problema manter-se-á, porque o número de passadeiras será insuficiente e o perfil da via não sofrerá qualquer alteração. Há excesso de volume e de velocidade nas ruas que cercam o jardim. Como já disse noutra ocasião, é incongruente cortar o jardim com atravessamentos quando, para lá chegarmos, temos passadeiras em apenas algumas pontas. É preciso redefinir o perfil da via, acalmar o trânsito e transformá-la numa zona de coexistência integrada na Rede 20.
Em suma, lá se vai mais uma oportunidade de se fazer (boa) cidade. Para a próxima, perguntem às pessoas o que elas querem e do que precisam. Nem os autarcas perderiam autoridade, nem os técnicos cairiam do pedestal por causa disso.