
Um dia destes, para nascer, ainda será preciso apresentar previamente um formulário devidamente preenchido e carimbado pelos pais. E, quando formos à praia, antes de entrar na água, talvez tenhamos de pedir licença, exibir certificado de natação e apresentar atestado psicológico. Para sair à rua, para trabalhar, para viver, precisamos hoje de uma quantidade absurda de autorizações. Já não existimos: existimos autorizados. Triste destino para os homens, invejável sorte para os animais.
Digo isto a propósito do Porto de Leixões, porque é neste país de autorizações que se discute agora a sua anunciada expansão.
O porto vai fazer 147 anos. Quando nasceu, existia ali uma vila piscatória chamada Leça da Palmeira, na altura em parte transformada em área chique balnear, e algumas áreas rurais, entre elas a de nome “Bouças”, que viriam mais tarde a dar origem à cidade de Matosinhos. Isto acontece em 1909, portanto, depois do próprio porto. O Porto de Leixões instala-se no estuário do rio Leça, entre a freguesia e uma zona industrial virada ao mar, do lado sul.
Depois veio a cidade. Cresceu. As áreas envolventes do porto transformaram-se primeiro em zonas de serviços e de comércio ligados às lides marítimas e à indústria das pescas e, mais tarde, em áreas habitacionais valorizadas, modernas, caras e desejáveis. Mas convém não esquecer um dado essencial: grande parte desse crescimento deve-se, precisamente, ao porto. Se quisermos usar uma metáfora familiar, Leixões não foi a mãe da cidade, mas foi, sem dúvida, o seu pai.

E agora o pai quer crescer. Quer ampliar-se, modernizar-se, continuar a cumprir a sua função económica, estratégica e regional. Não por vaidade, mas por necessidade, do país e da região. Só que os filhos, agora ricos e confortavelmente instalados na herança recebida, não querem trabalho, não querem ruído, não querem pó, não querem ver mãos sujas nem estruturas fabris à porta de casa. Acham até que o pai, com aquele aspecto industrial pouco fotogénico, devia desaparecer da paisagem.
E fazem uso de todos os instrumentos que hoje regulam qualquer acto de existência: regulamentos, pareceres, estudos, procedimentos, autorizações. Tudo serve para dizer, com linguagem educada, aquilo que no fundo é simples: “não queremos o pai aqui”.
E depois chamam-lhe participação cívica.
Pois eu gosto de portos. Gosto muito de barcos. E gosto pouco de ingratos.
Dito isto, não estou aqui a avaliar a forma como o porto prevê a sua evolução. Não conheço alternativas, não sei se o projecto está bem ou mal concebido, nem defendo se deve ou não avançar. Limito-me a constatar a sua história e a estranhar, com alguma amargura, a forma tristemente ingrata como é tratado por quem mais beneficiou da sua existência.
E isso, mais do que um problema urbanístico ou ambiental, é sobretudo um problema de memória, e de carácter.