
Lembram-se do clássico “A Ponte do Rio Kwai”? Creio que já passou tempo suficiente para dizer que, no fim, (spoiler alert!) a ponte vai pelos ares. O argumento é bastante linear e com o seu quê de absurdo: prisioneiros de guerra aliados são obrigados pelos japoneses a construir uma ponte, tarefa que os prisioneiros desempenham com toda a diligência e empenho, com um resultado admirável para, no final, a fazerem explodir.
Ora, diria que, mais coisa menos coisa, a Ponte Maria Pia é a nossa Ponte sobre o Rio Kwai. Foi inaugurada em 1877, projectada por Gustave Eiffel e pela sua equipa (com particular relevo para Théophile Seyrig), incorporando a mais avançada engenharia metálica do seu tempo. O arco de 160 metros foi, à data, o maior do mundo em ferro forjado. Era, nada mais nada menos, a materialização da própria modernidade em Portugal. Evidentemente, como toda a gente sabe, esta nossa ponte não foi mandada pelos ares e, por enquanto, ainda lá está. Preferimos desmantelá-la pelo esquecimento e pela incúria. Demora mais tempo – previsivelmente continuará de pé durante as próximas décadas – mas, no fundo, é como se já ali não estivesse. A tecnologia da implosão por esquecimento é de grande eficácia: reparem que a ponte de ficção sobre o Rio Kwai já não existe mais, mas foi imortalizada e incorporada no imaginário da cultura popular, ao passo que a Ponte Maria Pia só subsiste enquanto Substantia materialis despojada de qualquer significado e existência cultural. Está por ali mas é como se não estivesse e, pior, é como se nunca sequer tivesse existido. É uma outra espécie de condenação à morte, uma morte lenta por efeito da corrosão da indiferença e apagamento da memória.
Talvez um dia venha mesmo abaixo como diz Alexandre Burmester, mas a verdade é que há muito que esta implodiu dentro da consciência dos responsáveis políticos. Não é preciso ir muito longe. A própria Câmara do Porto não vê na Ponte Maria Pia um ativo turístico relevante. Se consultarmos o site oficial da Câmara para estas coisas, o Visit Porto, no qual se consubstancia a estratégia da divisão da cidade em 8 distritos turísticos, numa tentativa inconsequente de dispersar a procura turística pela cidade, verifica-se que a ponte não aparece referenciada no Quarteirão Campanhã que aparece caricaturado como “Um Porto Rural e Moderno”, obliterando todo o passado e património ligados à indústria. Destacam-se pontos de interesse como a Quinta da Bonjóia, a Marina do Freixo, o Estádio do Dragão e, até o Antigo Matadouro que, por enquanto, ainda é um projecto em desenvolvimento. A Ponte Maria Pia nem vê-la. Assim, claramente para a Câmara Municipal do Porto, a Ponte Maria Pia não é um “Ponto de Interesse” na construção de uma identidade turística do Campanhã District. Será, portanto, um Ponto de Desinteresse. Não conseguir ver aquela estrutura é obra: são1.500 toneladas de invisibilidade!
A ponte, portanto, continua lá mas é como se tivesse caído. Não obstante as já referidas 1500 toneladas de filigrana de ferro. Até um leigo como eu não pode deixar de pressentir que há ali uma grandeza única e irrepetível. Não terá sido por acaso que em 1982 foi classificada como Monumento Nacional. Depois disso ainda se manteve em serviço por quase uma década, encerrando definitivamente, após 114 anos, no dia de São João de 1991. Desde então, a ponte entrou num limbo, com o Estado e as autarquias a empurrarem entre si as responsabilidades. Projectos de reactivação vários, nomeadamente a criação de uma ecopista, seguiram-se sem que nenhum chegasse a se concretizar.
Uma ponte é uma ponte quando já não liga duas margens? Talvez um bibelot urbano, à maneira dos arquitectos Pedro Bandeira e Nuno Ramalho que em 2013, provocatoriamente, propuseram a transladação da Ponte para o interior do quarteirão da Companhia Aurifícia? Bom… talvez aí a Visit Porto não pudesse deixar de considerar a dita como ponto de interesse…

Em todo o caso, não é totalmente verdadeiro afirmar que a ponte não liga nada a lado algum. Serviu, por exemplo, para ligar Porto e Gaia a Solingen, discreta cidade da Renânia alemã. Em 2017, representantes municipais reuniram-se em Solingen para lançar as bases de uma candidatura conjunta ao Património Mundial da UNESCO envolvendo seis grandes pontes metálicas em arco do século XIX: além da Maria Pia, a Dom Luís I (Portugal), a Müngsten (Alemanha), Garabit e Viaur (França) e San Michele (Itália)1. Em 2019 e 2022 foram assinados memorandos de entendimento visando a preparação de um bem em série transnacional — a designação técnica adoptada pela UNESCO para candidaturas compostas por vários bens situados em diferentes países, unidos por coerência tipológica, histórica e tecnológica. A lógica é evidente. Estas pontes não são episódios isolados; são capítulos de uma mesma narrativa europeia da engenharia do ferro. Construídas num intervalo relativamente curto (1877–1902), representam o auge de uma tipologia estrutural que marcou a paisagem industrial do continente. Em conjunto, demonstram evolução técnica, ousadia construtiva e impacto territorial. A UNESCO tem reconhecido bens desta natureza quando o valor universal excepcional emerge precisamente da comparação e da coerência tipológica.
Todavia, a ponte poderá ter chegado a Solingen mas este era um caminho sem regresso. O memorando foi assinado e por aí mesmo ficámos. Na prática, os nossos representantes prosseguiram business as usual. O que acontece em Solingen fica em Solingen. Até à data nenhum passo foi dado no sentido de honrar a palavra dada. Para uma cidade como Porto, fundada sobre a solene prática burguesa de honrar e cumprir contratos, falhar a palavra para com os parceiros é algo que não faz justiça à sua própria história. O memorando previa a elaboração de um dossiê conjunto, fundamentando o valor universal excepcional, bem como a criação de um sistema de gestão articulado entre os vários países. Não se trata apenas de marketing patrimonial: implica planos de conservação, definição de zonas de protecção, mecanismos de monitorização e estratégias de uso compatíveis com a preservação.
Até ao momento, porém, o processo não conheceu quaisquer avanços públicos do lado português. Entretanto, a Lista Indicativa de Portugal foi revista em 2025., tendo-se perdido esta oportunidade. A inclusão prévia nessa lista é condição necessária para qualquer candidatura formal à UNESCO. Se a Maria Pia não estiver nela inscrita no próximo ciclo, ficará automaticamente afastada de uma eventual submissão internacional. Não há calendário fixo para novas revisões; dependem de decisão da Comissão Nacional da UNESCO. Precisamente por isso, o trabalho preparatório tem de começar antes da abertura de nova janela de oportunidade.
O Porto orgulha-se da sua tradição contratual, da palavra dada e cumprida. Honrar um compromisso assumido internacionalmente — ainda que por executivos anteriores — não é um detalhe protocolar; é uma questão de credibilidade institucional. Preparar um dossiê técnico não exige investimentos incomportáveis; exige decisão política, coordenação técnica e visão estratégica. Não se trata apenas de honrar a palavra dada, mas também de não desperdiçar um recurso que para além do seu valor histórico intrínseco, apresenta ainda um elevado potencial de desenvolvimento turístico e de integração na rede de mobilidade intermunicipal. Esperemos que Pedro Duarte e Filipe Menezes estejam à altura.
- A Itália retirou a Ponte San Michele (Paderno d’Adda) da candidatura UNESCO em Julho de 2024, na sequência da decisão de avançar com uma nova travessia considerada incompatível com o processo de classificação. Teoricamente, poderá ainda retomar o processo após a construção da nova ponte. ↩︎