A solução para a Habitação pode estar aqui ao lado

Assistimos há demasiado tempo à mesma discussão sobre a habitação em Portugal. O problema entrou definitivamente no espaço público e, desde então, multiplicam-se debates, conferências, relatórios, artigos e intervenções de todo o tipo. O diagnóstico repete-se de forma quase ritual: faltam casas, os preços são demasiado elevados e uma parte crescente da população tem dificuldade em encontrar onde viver.

Curiosamente, quanto mais se discute o tema, mais evidente se torna que o problema já foi suficientemente explicado. As causas estão identificadas, as condicionantes são conhecidas e até muitas das possíveis soluções já foram enunciadas vezes sem conta. O que parece faltar não é tanto compreensão do problema, mas capacidade, ou vontade, de aplicar, de forma consistente, as várias respostas que se sabem necessárias.

Porque a habitação é, naturalmente, um problema complexo. Não tem uma solução única nem milagrosa. Tem várias, que precisam de ser aplicadas em conjunto, ajustadas às realidades locais e às possibilidades de cada momento. E também já se percebeu outra coisa: não havendo soluções rápidas, será sempre necessário ir juntando peças, construindo respostas progressivas que, pouco a pouco, possam aliviar o problema.

Entretanto, o país mudou. A desertificação do interior, as novas formas de constituir família, o aumento da longevidade, a imigração e o crescimento da população em determinados centros urbanos vieram colocar uma pressão enorme sobre o mercado da habitação. Um mercado que, simplesmente, não consegue acompanhar a procura.

E, como se não bastasse, tudo o resto conspira contra qualquer solução: processos de licenciamento intermináveis, concursos públicos que se arrastam, regulamentação excessiva, falta de mão-de-obra, escassez de empresas de construção. Tudo isto somado significa duas coisas muito simples: construir é cada vez mais caro e cada vez mais difícil.

No meio de tantas discussões, uma ideia surge repetidamente, embora raramente levada a sério: incentivar verdadeiramente a vida no interior do país. Um interior que, convém lembrar, não fica no fim do mundo. Fica aqui ao lado, hoje servido por boas vias de comunicação e por infra-estruturas que há poucas décadas nem existiam.

Esse incentivo não deveria dirigir-se apenas às famílias, mas também às empresas. Bastaria, por exemplo, um programa fiscal inteligente, que reduzisse progressivamente impostos à medida que aumentasse a distância aos grandes centros urbanos. Para uma empresa, o essencial é ter mão-de-obra. E, com incentivos adequados, essa mão-de-obra também poderia encontrar razões para se fixar.

Além disso, cada vez mais pessoas trabalham à distância. O que antes era impensável hoje tornou-se banal. Trabalhar a partir de casa deixou de ser excepção para passar a ser uma possibilidade real para muitos sectores.

E talvez nem seja preciso explicar muito às famílias as vantagens dessa mudança. Trocar apartamentos exíguos em bairros periféricos, ou até centrais, por casas com espaço, quintal e qualidade de vida. Voltar a viver num ambiente menos congestionado, mais saudável, mais humano.

O interior agradeceria. A pressão imobiliária nas grandes cidades também. E até o enorme património construído que hoje se encontra abandonado poderia finalmente ganhar uma nova vida. Porque, no fundo, o país que continua a discutir o problema da habitação talvez já tenha parte da solução mesmo à sua frente, simplesmente esqueceu-se de olhar para ela.

Divulgar:

Publicado

em

por

Etiquetas: