PODCAST BURGO: JOSÉ GOMES FERNANDES (1)

O convidado deste episódio é o arquitecto José Gomes Fernandes. A gravação que vão ouvir resulta de uma segunda tentativa, já que o ficheiro da entrevista original, foi dado como perdido. Temos assim uma versão revista e aumentada da primeira conversa, o que só prova, mais uma vez, que há males veem por bem. Dada a extensão da entrevista,  decidimos dividir o episódio em duas partes. Nesta primeira, falamos, entre outros temas, do movimento cooperativo no Grande Porto, da importância da ODAM — Organização dos Arquitectos Modernos — e do CRUARB. Na segunda parte, que será publicada na próxima semana, falaremos, entre outros temas, da passagem pelo II Governo Constitucional, do período em que foi vereador do Urbanismo, nos anos 90, e da relação com Fernando Gomes. A conversa passará também pelo Bom Sucesso e pela evolução da baixa do Porto.

Há nomes que ficam ligados a uma cidade não por a representarem, mas por terem participado, de forma continuada, nos seus debates, nos seus conflitos e nas suas transformações. José Gomes Fernandes é um desses nomes. Arquitecto, urbanista, professor universitário, cronista e autor de várias obras, a sua ligação ao Porto construiu-se tanto pela acção como pela escrita.

Nascido em Oliveira de Azeméis, a 22 de Agosto de 1939, ligou uma parte decisiva da sua vida profissional, pública e intelectual ao Porto. Politicamente empenhado, exerceu cargos de confiança política, foi eleito para outros tantos e participou, a diferentes níveis, em momentos importantes da vida pública portuguesa. Foi presidente da Secção Regional do Norte da Associação dos Arquitectos Portugueses, deputado à Assembleia da República, Secretário de Estado e vereador do Urbanismo e da Reabilitação Urbana da Câmara Municipal do Porto. Mas reduzir o seu percurso a essa sequência institucional seria insuficiente. Gomes Fernandes foi também, durante décadas, uma voz da cidade, nomeadamente através das crónicas que publicou com regularidade na imprensa local e nacional, construindo um lugar próprio entre a reflexão urbanística, a intervenção cívica e a escrita.

Enquanto arquitecto, é autor de vários projectos que, mesmo sem o protagonismo de outros nomes da mesma geração, transformaram de forma decisiva o território urbano. É o caso, desde logo, de diversos projectos ligados a cooperativas de habitação, onde a arquitectura surge menos como gesto de afirmação individual do que como resposta a necessidades concretas e como instrumento de organização do espaço habitado. Também por aí se percebe uma constante do seu percurso: a recusa de separar a prática arquitectónica dos problemas sociais e urbanos.

Foi, no entanto, no CRUARB — Comissariado para a Reabilitação Urbana da Área Ribeira-Barredo — que o seu nome ficou mais profundamente associado a uma experiência decisiva da história urbana do Porto. Ao assumir a liderança do organismo, após o mandato interrompido de Jorge Gigante, Gomes Fernandes ajudou a criar as condições para a concretização de um dos mais ambiciosos projectos de intervenção e reabilitação urbana realizados em Portugal. O contexto em que isso aconteceu não deve ser subestimado. O CRUARB é criado escassos três meses após o 25 de Abril de 1974, e Gomes Fernandes é nomeado comissário em Abril de 1976, num momento em que quase tudo estava ainda por estabilizar: os enquadramentos administrativos, os equilíbrios políticos, os canais de financiamento e o próprio sentido da intervenção pública sobre o centro histórico.

A relocalização da sede do CRUARB para o coração do Centro Histórico, a formação e estabilização da equipa, as constantes negociações com a população local, mas também com o Estado central e com a Câmara Municipal do Porto deram a esse processo uma enorme complexidade política e humana. Não estava apenas em causa a recuperação de edifícios degradados, mas a possibilidade de intervir num tecido urbano denso, socialmente vulnerável e historicamente carregado, sem o reduzir a uma operação técnica ou patrimonial. É a forma através da qual se foi recuperando o edificado em diálogo com as populações, desarmadilhando tensões sociais e administrativas, que faz da experiência do CRUARB um caso que merece ser revisitado e estudado.

Essa experiência merecia talvez ser hoje mais revisitada do que é, não apenas pelo que teve de pioneiro, mas também pelo que revelou acerca dos limites e das dificuldades da acção pública em contexto urbano consolidado. Merecia sê-lo, além disso, a partir de uma pluralidade de testemunhos. A perspectiva de José Gomes Fernandes ficou registada no seu livro-testemunho Centro Histórico do Porto: Dar futuro ao nosso passado, publicado em 1983 pela Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, texto incontornável para perceber a sua leitura da intervenção na Ribeira-Barredo e, mais amplamente, a sua ideia de cidade histórica e de reabilitação.

Recomendamos ainda que revisitem a série Dentro da Cidade” criada por José Gomes Fernandes para a RTP em 1978. Um quadro sociológico e urbano do Porto desenhado ao longo de seis episódios: “Direito à Cidade”, “A Cidade e a Criança”, “O Outono da Cidade”, “Luz e Sombra da Cidade”, “A Cidade e os Bichos” e “Que Futuro para o Passado?”. Todos eles são excelentes, mas este último é particulamente interessante pela reflexão que traz sobre o futuro dos centros históricos. Vale a pena nem que seja para verem raras imagens documentais da vida na Ribeira-Barredo no final dos anos 70.


Ficha Técnica: Podcast gravado a 23.03.2026. Coordenação, entrevista e edição por David Afonso e Tiago Azevedo Fernandes. Fotografia: Tiago Azevedo Fernandes. Genérico: “Porto à chuva Blues” de Jorge Carvalho.

Divulgar:

Publicado

em

por