O Paradoxo da Comunicação e a Falência da Participação Cívica

A sociedade contemporânea vive um paradoxo curioso: nunca existiram tantos meios de comunicação, tantas plataformas, tanta velocidade na circulação da informação, e, no entanto, nunca pareceu existir tanta dificuldade em comunicar verdadeiramente.

Vivemos rodeados de notificações, redes sociais, comentários, opiniões instantâneas e canais permanentes de contacto. Tudo comunica. Todos falam. Mas cada vez menos pessoas escutam, participam ou se envolvem de forma consistente na vida colectiva.

Este fenómeno torna-se particularmente evidente na forma como hoje exercemos, ou deixamos de exercer, a cidadania.

A indignação tornou-se a forma dominante de participação pública. Reclama-se muito, comenta-se tudo, critica-se constantemente. Contudo, raramente existe um verdadeiro interesse em acompanhar os processos, compreender os temas ou participar activamente nas decisões antes de elas estarem tomadas.

As pessoas indignam-se quando descobrem um edifício desajustado, uma intervenção urbana agressiva, uma alteração de trânsito ou uma decisão política controversa. Mas quantas acompanharam previamente os processos? Quantas procuraram informar-se? Quantas participaram nos períodos de consulta pública?

A verdade é incómoda para todos: nem os cidadãos participam verdadeiramente, nem os poderes públicos parecem realmente interessados em criar mecanismos eficazes de participação.

Os responsáveis políticos e os gestores públicos cumprem frequentemente as exigências legais da participação pública de forma meramente formalista. Existem consultas públicas, apresentações, períodos de discussão, editais e anúncios. Mas, na prática, tudo isto continua muitas vezes a funcionar segundo uma lógica administrativa herdada do passado.

O chamado “período de consulta pública” continua, em muitos casos, a ser pouco mais do que a versão digital do antigo edital afixado à porta da repartição: cumpre-se a obrigação legal de informar, mas sem verdadeira preocupação em garantir que a população tomou conhecimento, compreendeu o assunto ou teve condições reais para participar.

Por vezes, para reforçar a imagem de transparência e abertura, organizam-se sessões públicas de apresentação ou debate. Mas muitas dessas iniciativas acabam invariavelmente com pouca participação, escasso contraditório e um ambiente semelhante ao de uma reunião de condomínio: longas exposições técnicas, reduzida capacidade de mobilização e um resultado praticamente irrelevante para a decisão final.

Deste modelo resulta uma dupla falência.

Por um lado, os cidadãos afastam-se progressivamente da participação cívica séria e continuada, limitando-se à reacção emocional posterior. Por outro, os decisores públicos acabam privados de contributos efectivos da sociedade, governando muitas vezes sem verdadeiro envolvimento popular, apesar de formalmente cumprirem os mecanismos democráticos existentes.

O mais paradoxal é que tudo isto acontece precisamente numa época em que nunca foi tão fácil comunicar.

Hoje existem ferramentas capazes de chegar directamente às pessoas em segundos. Sistemas digitais, plataformas interactivas, comunicação segmentada, redes sociais, fóruns públicos online, transmissões em directo, aplicações móveis e mecanismos de participação imediata poderiam transformar profundamente a relação entre cidadãos e poder político.

Mas continuamos presos a modelos burocráticos, lentos e pouco eficazes, desenhados para uma sociedade analógica que já não existe.

A democracia representativa não pode sobreviver apenas de eleições periódicas e indignações episódicas nas redes sociais. Precisa de mecanismos permanentes de participação, informação clara, linguagem acessível e processos transparentes que permitam aos cidadãos acompanhar as decisões antes de elas se tornarem irreversíveis.

Também os cidadãos terão de assumir uma parte dessa responsabilidade. Participar exige tempo, atenção, esforço e vontade de compreender temas complexos. Uma sociedade que apenas reage quando o problema já está construído, aprovado ou consumado dificilmente conseguirá influenciar o rumo das decisões.

Talvez esteja precisamente aqui um dos grandes desafios das democracias modernas: transformar comunicação em participação e transformar informação em envolvimento cívico real.

Porque sem cidadãos presentes e sem instituições verdadeiramente abertas ao diálogo, a democracia arrisca-se a tornar-se apenas um exercício formal, legalmente correcto, mas politicamente vazio.

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